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segunda-feira, 24 de maio de 2010

Marília de Dirceu: Parte I - Lira XIV



Minha bela Marília, tudo passa;
A sorte deste mundo é mal segura;
Se vem depois dos males a ventura,
Vem depois dos prazeres a desgraça.
Estão os mesmos Deuses
Sujeitos ao poder do ímpio Fado:
Apolo já fugiu do Céu brilhante,
Já foi Pastor de gado.

A devorante mão da negra Morte
Acaba de roubar o bem, que temos;
Até na triste campa não podemos
Zombar do braço da inconstante sorte.
Qual fica no sepulcro,
Que seus avós ergueram, descansado;
Qual no campo, e lhe arranca os frios ossos
Ferro do torto arado.

Ah! enquanto os Destinos impiedosos
Não voltam contra nós a face irada,
Façamos, sim façamos, doce amada,
Os nossos breves dias mais ditosos.
Um coração, que frouxo
A grata posse de seu bem difere,
A si, Marília, a si próprio rouba,
E a si próprio fere.

Ornemos nossas testas com as flores.
E façamos de feno um brando leito,
Prendamo-nos, Marília, em laço estreito,
Gozemos do prazer de sãos Amores.
Sobre as nossas cabeças,
Sem que o possam deter, o tempo corre;
E para nós o tempo, que se passa,
Também, Marília, morre.

Com os anos, Marília, o gosto falta,
E se entorpece o corpo já cansado;
Triste o velho cordeiro está deitado,
E o leve filho sempre alegre salta.
A mesma formosura
É dote, que só goza a mocidade:
Rugam-se as faces, o cabelo alveja,
Mal chega a longa idade.

Que havemos de esperar, Marília bela?
Que vão passando os florescentes dias?
As glórias, que vêm tarde, já vêm frias;
E pode enfim mudar-se a nossa estrela.
Ah! não, minha Marília,
Aproveite-se o tempo, antes que faça
O estrago de roubar ao corpo as forças
E ao semblante a graça.



Vocabulário
Ventura: felicidade.
Ímpio fado: impiedoso destino.
Apolo: Deus grego.
Campa: sepulcro, túmulo.
Ditosos: felizes.
Difere: adia.
Laço: abraço.
Sãos: honestos.
Leve: brincalhão.
Dote: bem, prêmio.
Alveja: embranquece.
Estrela: destino.
Graça: beleza.

O maior de nossos arcádicos, Tomás Antônio Gonzaga, por ser simultaneamente o autor de Marília de Dirceu e das Cartas Chilenas, já desvenda, pela inquietação latente de seu lirismo, pelos versos repassados de ternura e emoção amorosa, pelas estâncias bucólicas de acentuado cunho realista, ser não apenas o maior vulto do setecentismo brasileiro, mas também admirável expressão antecipada do nosso romantismo (pré-romantismo presente em suas obras, seja pela ideia do tempo fluindo, seja pelo passadismo ou saudosismo, ou, até mesmo, pelo que norteia toda a confecção de Marília de Dirceu: a declaração do amor constante, em qualquer circunstância).

Esta é uma das mais significativas liras de Gonzaga: além de ser uma apologia da mocidade, é também um alerta quanto ao passar do tempo (tema já bastante explorado pela estética barroca). 

Observe também que os versos são decassílabos (dez sílabas), com exceção do quinto e oitavo de cada estrofe (heróicos quebrados ou hexassílabos – seis sílabas). As rimas são opostas (ABBA) e alternadas (CDED). 

 O poeta evita, nos versos longos, rimas agudas, equilibrando com os decassílabos sons agudos de versos heróicos quebrados obtendo, assim, com sílabas graves e agudas extraordinário grau e poder de precisão métrica dificilmente repetidos, o que conduz à beleza da linha melódica e uma imagística do melhor quilate poético.

Comentários sobre o poema

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Atividades propostas

1. O poema de Gonzaga tem como assunto a inconstância do destino.

a) Como essa inconstância é apresentada nos primeiros quatro versos do poema?

b) A fim de sustentar sua visão da sorte instável, o eu do poema propõe uma comparação na primeira estrofe. Que comparação é essa?

2. A forma do poema sugere um diálogo. Que elementos sustentam essa ideia?

3. Na segunda estrofe, há uma referência à falta da sorte mesmo depois da morte. Que fatalidade pode ocorrer com os restos mortais enterrados, segundo o poema?

4. Na terceira e na quarta estrofe, o eu do poema sugere uma maneira de lidar com as reviravoltas do destino: fazer os dias mais felizes. A qual lugar-comum da poesia árcade esse trecho do poema se associa?



O poema desenvolve o tema do carpe diem: colher o dia, ou seja, aproveitar o dia presente. Trata-se de uma expressão latina, proveniente da Ode XI, do livro I das Odes de Horácio. O sentido é de que devemos apro

veitar as ocasiões quando elas se apresentam. O ser humano não deve se inquietar com o amanhã, cujo saber pertence aos deuses. Enquanto nos preocupamos com o que não nos cabe saber, o tempo foge. Devemos, portanto, saber reconhecer quais as ocasiões favoráveis para aproveitá-las. Logo, a vida é breve e devemos gozar dela sem desperdiçar o tempo.
Na 1ª estrofe, o eu lírico assinala a inconstância das coisas (os prazeres da vida vêm, sempre seguidos da desventura), pois o destino humano é incerto (´´A sorte deste mundo é mal segura``). Ressalta que os próprios deuses estão sujeitos ao ´´ímpio Fado`` (impiedoso destino). Curiosamente, o tema da estrofe é a inconstância da sorte. É como se o encurtamento do verso, alternado com o verso mais longo, imitasse os altos e baixos do destino.
A referência ao deus grego Apolo (exilado no país de Admeto, rei da Tessália, onde pastoreou os rebanhos e dirigiu os pastores) é típica do Arcadismo, escola que pretendia uma espécie de retorno ao tempo mitológico da Grécia clássica. Em uma das muitas versões míticas, Apolo foi destituído por Zeus de seus poderes, virtudes e atributos, passando assim, de uma total soberania e esplendor, para a condição de servo de reis e pastor de rebanhos.
Para o Arcadismo, a vida do pastor, singela e próxima da natureza, é bela e pura. No entanto os versos ´´Apolo já fugiu do céu brilhante / já foi pastor de gado`` criam uma imagem dentro da qual estar no céu é o polo positivo (felicidade) e ser pastor é o polo negativo (degradação). Portanto, a imagem contida nos versos é surpreendente quando percebemos que ela subverte o tema árcade da vida pastoril como ideal a ser buscado (locus amoenus). Dentre as inúmeras características árcades presentes no poema, destacam-se: a valorização da mitologia e do paganismo.
Na 2ª estrofe, o poeta tece considerações sobre a Morte: a morte tudo destrói; mesmo na ´´triste campa``, o homem está sujeito à inconstante sorte. Observe a personificação e a tonalidade quase surreal da combinação devorante mão.
Nas duas primeiras estrofes, são feitas duas colocações de que decorrem os outros versos.
Na 3ªestrofe, ´´Destinos impiedosos`` retoma ´´ímpio Fado``. Ora, assim como os deuses estão sujeitos ao ´´ímpio Fado``, os homens estão ao ´´Destino impiedoso``. E, uma vez que ´´A sorte deste mundo é mal segura``, a única atitude perante a própria vida é aceitar o convite amoroso, tornando os breves dias mais felizes (“façamos sim, façamos, doce amada, / os nossos breves dias mais ditosos”).
Na 4ª estrofe, o eu lírico enfatiza o ideal de felicidade campestre e a presença de elementos que remetem a um ambiente pastoril .A presença do bucolismo, da valorização da vida simples está expressa em trechos, como em ´´Ornemos nossas testas com as flores; / E façamos de feno um brando leito (...)``. Surge a visão epicurista ( sensual) da vida (´´Gozemos do prazer de sãos Amores``) .
A valorização do ´´carpe diem`` devido à consciência da fugacidade do tempo está presente na 5ª estrofe (premissa dos versos iniciais). O fluir do tempo deixa marcas, em seu caminho. O corpo perde a sensibilidade (´´E se entorpece o corpo já cansado``) O poeta compara duas etapas da vida, mocidade e velhice utilizando, em certo momento, exemplos da própria natureza (´´Triste o velho cordeiro está deitado / E o leve filho sempre alegre salta``).
O homem está sujeito à morte, destino impiedoso, fluir do tempo, velhice. Surge um questionamento na 6ª estrofe: ´´Que havemos de esperar, Marília bela?`` A observação das constantes mudanças do mundo (carregadas de uma conotação negativa, de degenerescência) faz com que o eu lírico conclua ser necessário aproveitar o momento valorizado pela juventude (´´Aproveite o tempo, antes que o faça``), a vida presente (filosofia do carpe diem), antes que a velhice roube ´´ ao corpo as forças e ao semblante a graça``.
O sensualismo velado de Marília de Dirceu, a transmitir sempre fidelidade diante do amor e da vida, não parece desaparecido com os amargores da Inconfidência, o exílio africano e o casamento distante. O mito Marília, doce e meiga, a noiva ideal que todos os homens anseiam, continuará vivo porque permanente símbolo de beleza, de um amor interrompido no tempo, e portanto eterno. Viverá enquanto existir o semblante e graça de uma adolescente que a lira de um grande poeta eternizou em seu infortúnio, a comover em todos os séculos gerações de língua portuguesa.

domingo, 16 de maio de 2010

Marília de Dirceu: Parte III - Lira III



Tu não verás, Marília, cem cativos
Tirarem o cascalho, e a rica, terra,
Ou dos cercos dos rios caudalosos,
Ou da minada serra.

Não verás separar ao hábil negro
Do pesado esmeril a grossa areia,
E já brilharem os granetes de ouro
No fundo da bateia.

Não verás derrubar os virgens matos;
Queimar as capoeiras ainda novas;
Servir de adubo à terra a fértil cinza;
Lançar os grãos nas covas.

Não verás enrolar negros pacotes
Das secas folhas do cheiroso fumo;
Nem espremer entre as dentadas rodas
Da doce cana o sumo.

Verás em cima da espaçosa mesa
Altos volumes de enredados feitos;
Ver-me-ás folhear os grande livros,
E decidir os pleitos.

Enquanto revolver os meus consultos.
Tu me farás gostosa companhia,
Lendo os fatos da sábia mestra história,
E os cantos da poesia.

Lerás em alta voz a imagem bela,
Eu vendo que lhe dás o justo apreço,
Gostoso tornarei a ler de novo
O cansado processo.

Se encontrares louvada uma beleza,
Marília, não lhe invejes a ventura,
Que tens quem leve à mais remota idade
A tua formosura.



Vocabulário
Cativos: escravos.
Minada: escavada
Esmeril: resíduo de minerais pesados.
Granetes: pequenos grãos.
Bateia: gamela de madeira usada para a lavagem de areia ou cascalho que contenha minerais preciosos.
Capoeiras: mato nascido nas áreas em que se faz a derrubada de matas virgens.
Pleito: expressão jurídica para designar litígio, conflito.
Fastos: registros públicos de fatos ou obras memoráveis.



Tomás Antônio Gonzaga nasceu em Portugal. Tendo passado parte de sua infância e adolescência no Brasil, formou-se depois em Coimbra e voltou para o Brasil já homem feito. Influenciado pelo Iluminismo que empolgava a Europa, membro da elite intelectual de Vila Rica, chegou a tomar parte na Conjuração Mineira.

O poeta árcade usava um nome artístico que lembrava a tradição greco-latina: Dirceu. Sua obra maior é, inclusive, intitulada Marília de Dirceu, coletânea de poemas ( liras) em que o autor, personificado como Dirceu, dirige-se à amada pastora Marília, quer para confessar sua paixão, quer para falar da vida em geral, quer para filosofar sobre a existência.

Marília de Dirceu se divide em três partes. A primeira, escrita em liberdade, caracteriza-se pelo tom de plena felicidade, contendo confissões amorosas, descrições da amada e da paisagem mineira, o ideal otimista de vida do ´´pastor``. Na segunda, o eu lírico, fragilizado pela prisão e pela incerteza de seu destino, revela sofrimento físico e moral; predomina um tom trágico, de desalento, de revolta e amargura (passa a usar Marília como um pretexto para falar mais de si próprio, atitude que os críticos consideram pré-romântica). Na terceira, provavelmente após o degredo, fala de amores, desenganos e traições, porém a figura da pastora não mais se encontra presente com tanta intensidade (são dedicadas não apenas a Marilia, mas também a outras pastoras).

Vila Rica era o centro de uma verdadeira ´´civilização do ouro`` que se desenvolveu no século XVIII, na região das Minas Gerais. Foi Gonzaga, entre os poetas mineiros, quem primeiro experimentou introduzir nos seus versos a ousadia de certas expressões muito particulares ao cotidiano como, por exemplo, bateia, capoeira, cascalho, expressões que ajudaram a fornecer a sua poética um timbre caracteristicamente local, particularmente realista e sobretudo de fácil trânsito entre diversos extratos sociais

A Lira III, uma das mais bonitas, apresenta elementos a partir de dois planos. O ambiente que aparece na primeira parte (quatro estrofes iniciais) é exterior, enquanto que o da segunda (quatro estrofes finais) é interior. O ambiente da primeira parte contrasta muito com o da segunda.

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O poema se compõe de 8 estrofes, de 4 versos cada uma, portanto, de 8 quartetos. Aparecem versos de dois tipos: os três primeiros versos da estrofe são decassílabos; o último verso é hexassílabo (de 6 sílabas). Quanto à rima, ela aparece nos versos pares (versos 2 e 4; versos 6 e 8; etc).

Nas primeiras estrofes (começadas por ´´não verás``) predomina o trabalho dos escravos em algumas atividades econômicas da região como: a exploração aurífera através da mineração (´´minada serra`` – montanha escavada pela busca do ouro) e da garimpagem, (´´granetes de oiro / No fundo da bateia``) presentes na 1ª e 2ª estrofe; a agricultura ( o trabalho braçal no campo em ´´Lançar os grãos nas covas``), na 3ª estrofe e o trabalho pré-industrial na produção do fumo e do açúcar( ´´ enrolar negros pacotes / espremer entre as dentadas rodas ``, na 4ª estrofe).



Nas outras (começadas por ´´verás``) predomina o elogio da vida equilibrada e a atividade amena do letrado, do intelectual na presença da ´´pastora Marília``. A antecipação desse convívio benfazejo é indicada pela exploração de verbos no futuro, presentes em todo o poema. O poeta faz referência, nesse sentido, ao trabalho na magistratura (5ª estrofe) e à vida tranquila que levará no lar, podendo se dedicar à cultura, em concomitância com as suas obrigações (6ª e 7ª estrofes). A felicidade conjugal está evidenciada na ´´gostosa companhia``, ou seja, o contentamento e o prazer que a amada levaria ao eu lírico, enquanto este se dedicasse ao seu ofício
(´´Gostoso tornarei a ler de novo / O cansado processo``).

Uma característica de estilo presente no poema é o largo uso do adjetivo, que na função sintática de adjunto adnominal, ocorre quase sempre anteposto ao nome, como em ´´rica terra``, ´´hábil negro`` e ´´cansado processo``. Trata-se de um caso de leve inversão ou anástrofe, muito freqüente nas poesias árcade e clássica. Em Gonzaga, tal vezo sintático não perturba o notável coloquialismo dos seus poemas.

Na última estrofe, diante da promessa de total dedicação a sua amada, o poeta propõe que a beleza de Marília seja eternizada por sua lira. No ambiente irreal da vida de casados (pois o casamento ainda não se realizou), o poeta não apenas enaltece Marília, mas também a si mesmo.

segunda-feira, 10 de maio de 2010

As espécies narrativas: A crônica e o conto

A crônica


Muitas vezes é difícil estabelecer a diferença entre o conto e a crônica, pois desta participam personagens, o tempo e o espaço estão claramente definidos e um pequeno enredo é desenvolvido. Trata-se de um fato do cotidiano, mesmo quando apresenta um caráter atemporal. É uma forma que, nos dias de hoje, manteve ingredientes da literatura e da simples comunicação.


Curta, a crônica limita-se a narrar um incidente ou apenas comentá-lo; capta um flagrante da vida, pitoresco, real ou imaginário, com ampla variedade temática e num tom poético, embora coloquial da linguagem oral. Tem o seu radical em cronos (tempo), impondo-se, nesse sentido, por uma característica de síntese, de rapidez.


Ao tratar de fatos ou acontecimentos que caracterizam uma parte da sociedade, a crônica exprime o estado emotivo do cronista (crônica lírica), apresenta uma reflexão a partir de um fato ou evento (crônica filosófica), dá-nos uma visão irônica ou cômica dos fatos (crônica humorística) ou trata de aspectos particulares da notícia ou dos fatos (crônica esportiva, policial, política etc).


Provavelmente, o seu aparecimento é antigo. Sabemos dos costumes das dinastias em manter cronistas, a fim de relatar os acontecimentos importantes da corte. São conhecidos os cronistas portugueses, como Rui de Pina, Zurara e outros. Assim foram os séculos XV e o XVI.


Normalmente, o autor é o narrador, atuando num ponto de vista interno, completamente onisciente. Ele conhece a história, embora não participe muitas vezes. Daí a constância da 3ª pessoa.


Machado de Assis foi o nosso primeiro grande cronista, seguido por nomes como Carlos Drummond de Andrade, Rubem Braga, Fernando Sabino, Stanislaw Ponte Preta, Luís Fernando Veríssimo, Lourenço Diaféria etc Figurando quase sempre em jornal ou revista, a crônica geralmente traz ao leitor, em tom humorístico, o dia-a-dia da cidade.


A crônica é quase sempre um texto curto, apressado (geralmente o cronista escreve para o jornal alguns dias da semana, ou tem uma coluna diária), redigindo numa linguagem descompromissada, muito próxima ao leitor. A crônica a seguir (´´A casa das ilusões perdidas``), por exemplo, tem por base um acontecimento do cotidiano, o caso da troca de um bebê por uma casa, colhido no noticiário geral:

A casa das ilusões perdidas


Quando ela anunciou que estava grávida, a primeira reação dele foi de desagrado, logo seguida de franca irritação. Que coisa, disse, você não podia tomar cuidado, engravidar logo agora que estou desempregado, numa pior, você não tem cabeça mesmo, não sei o que vi em você, já deveria ter trocado de mulher havia muito tempo. Ela, naturalmente, chorou, chorou muito. Disse que ele tinha razão, que aquilo fora uma irresponsabilidade, mas mesmo assim queria ter o filho. Sempre sonhara com isso, com a maternidade — e agora que o sonho estava prestes a se realizar, não deixaria que ele se desfizesse.

— Por favor, suplicou. — Eu faço tudo que você quiser, eu dou um jeito de arranjar trabalho, eu sustento o nenê, mas, por favor, me deixe ser mãe.

Ele disse que ia pensar. Ao fim de três dias daria a resposta. E sumiu.

Voltou, não ao cabo de três dias, mas de três meses. Àquela altura ela já estava com uma barriga avantajada que tornava impossível o aborto; ao vê-lo, esqueceu a desconsideração, esqueceu tudo — estava certa de que ele vinha com a mensagem que tanto esperava, você pode ter o nenê, eu ajudo você a criá-lo.

Estava errada. Ele vinha, sim, dizer-lhe que podia dar à luz a criança; mas não para ficar com ela. Já tinha feito o negócio :trocariam o recém-nascido por uma casa. A casa que não tinham e que agora seria o lar deles, o lar onde — agora ele prometia — ficariam para sempre.

Ela ficou desesperada. De novo caiu em prantos, de novo implorou. Ele se mostrou irredutível. E ela, como sempre, cedeu.

Entregue a criança, foram visitar a casa. Era uma modesta construção num bairro popular. Mas era o lar prometido e ela ficou extasiada. Ali mesmo, contudo, fez uma declaração:

— Nós vamos encher esta casa de crianças. Quatro ou cinco, no mínimo.

Ele não disse nada, mas ficou pensando. Quatro ou cinco casas, aquilo era um bom começo.

(Moacyr Scliar, Folha de S.Paulo, 14.06.1999.)

Na crônica em questão, as personagens são apenas duas, as ações ocorrem na casa deles e o tempo de ação é maior do que o normal nesse tipo de gênero (um ano, no caso), pois a intenção do cronista (narrador observador) é narrar os fatos que precedem o acontecimento principal (a troca) para evidenciar a cumplicidade do casal, a frieza do marido, o absurdo de uma ação como essa.


O conto


Provavelmente, do latim commentu (invenção, ficção). Talvez o conflito entre Caim e Abel seja o primeiro conto que se conhece. Nos séculos XV e XVII é cultivado. Lembre-se a figura de Bocácio, assim como Miguel de Cervantes, La Fontaine e Quevedo.


Desenvolve-se bastante no século XIX. Surgem Flaubert, Balzac, Poe, Gogol, Hoffmann, Machado de Assis, Eça de Queirós, Herculano, Simões Neto etc.


No século XX aprimora-se mais ainda: Kafka, Joyce, Monteiro Lobato, Mário de Andrade, Alcântara Machado, Oswald de Andrade, Drummond, Manuel Bandeira, J.J.Veiga, Paulo Mendes Campos, Miguel Torga, Fernando Namora, entre outros.


No conto, a narrativa trabalha com uma série de incidentes em torno de um conflito, vivido por uma personagem, num só episódio, com início e desfecho muito próximos (narrativa de maior brevidade). A ação é restrita, assim como o espaço. Portanto a unidade de ação corresponde à unidade de espaço.


O cenário também é restrito. Pode ser considerado um embrião do romance ou novela. Assim, o tempo também é reduzido, com número reduzido de personagens. Predomina o diálogo, apresentando diversas vezes um epílogo enigmático (um fim completamente inesperado).


Constrói-se, amiúde, em diálogo interior ou monólogo. Um exemplo de diálogo interior é o conto O Ladrão, de Graciliano Ramos. Assim, a descrição, a narração e a dissertação quase não existem. Há uma precipitação (ou complicação) da primeira à última linha, com uma trama objetiva e normalmente linear. Seu principal valor está na beleza e na perfeição da história contada, com acentuado senso de fantástico e de simbólico.


O conto atualmente prolifera e se adapta às condições e exigências da clientela leitora. Há contos de conteúdo denso e psicológico (como os de Maupassant, Machado de Assis), impressionistas (como os de Fialho de Almeida), fantásticos (como os de Hoffmann), simbolistas (como os de Oscar Wilde), regionais (como os de Monteiro Lobato), de mistério e policiais (como os de Edgar Allan Poe, Conan Doyle), de fadas (como os dos irmãos Grimm, Perrault, Andersen), orientais (como os da ´´Mil e uma Noites``, os de Malba Tahan), de aventuras (como os de Kipling) etc.


No Brasil houve e há grandes cultores do conto, alguns com criações que ficaram famosas e nunca poderão ser esquecidas, como por exemplo: A Missa do Galo, de Machado de Assis; O Peru de Natal, de Mário de Andrade; O Negrinho do Pastoreiro, de J.Simões Lopes Neto; Laços de Família, de Clarice Lispector; A Doida, de Carlos Drummond de Andrade; Insônia, de Graciliano Ramos; Gaetaninho, de Alcântara Machado; O Homem que falava Javanês, de Lima Barreto; Meu conto de Maupassant, de Monteiro Lobato; O Plebiscito, de Artur Azevedo.


A forma curta do conto provém de um motivo interno à sua construção – o contista deve concentrar efeitos para ocasionar um determinado impacto no leitor. Toda a construção da narrativa direciona-se para propiciar esse efeito:


Mergulho II

“Na primeira noite, ele sonhou que o navio começara a afundar.

As pessoas corriam desorientadas de um lado para outro no tombadilho, sem lhe dar atenção. Finalmente conseguiu segurar o braço de um marinheiro e disse que não sabia nadar. O marinheiro olhou bem para ele antes de responder, sacudindo os ombros:”Ou você aprende ou morre”.

Acordou quando a água chegava a seus tornozelos.

Na segunda noite, ele sonhou que o navio continuava afundando. As pessoas corriam de outro para um lado, e depois o braço, e depois o olhar, o marinheiro repetindo que ou ele aprendia a nadar ou morria. Quando a água alcançava quase a sua cintura, ele pensou que talvez pudesse aprender a nadar. Mas acordou antes de descobrir.

Na terceira noite, o navio afundou.”

(Caio Fernando Abreu)


O miniconto Mergulho II, do livro Pedras de Calcutá, indicia o medo, a solidão e o fantástico . A água obviamente é o tema central, desta vez em um sonho no qual um navio começa a afundar. Um pesadelo banal se transforma em realidade.

sábado, 8 de maio de 2010

Soneto XCVIII - Claúdio Manuel da Costa



 Destes penhascos fez a natureza
O berço em que nasci: oh! quem cuidara
Que entre penhas tão duras se criara
Uma alma terna, um peito sem dureza!

Amor, que vence os tigres, por empresa
Tomou logo render-me; ele declara
Contra meu coração guerra tão rara
Que não me foi bastante a fortaleza.

Por mais que eu mesmo conhecesse o dano
A que dava ocasião minha brandura,
Nunca pude fugir ao cego engano;

Vós que ostentais a condição mais dura,
Temei, penhas, temei: que Amor tirano
Onde há mais resistência mais se apura.



Vocabulário
Penhasco: pedra elevada.
Criara: criasse.
Cuidara: imaginaria.
Ocasião: motivo.
Penhas: rochas.
Terna: branda, meiga.
Empresa: empreendimento.
Ostentar: exibir, mostrar.
Mais se apura: torna-se mais concentrado.

O Arcadismo foi um estilo literário que perdurou pela maioria do século XVIII, tendo como principal característica o bucolismo, elevando a vida despreocupada e idealizada nos campos. Muitos dos participantes da Conjuração Mineira foram poetas árcades.

Cláudio Manuel da Costa, embora tenha toda sua formação no período barroco, escolhe o Arcadismo como forma de manifestação artística, tendo, inclusive, iniciado o movimento no Brasil, com a publicação de Obras Poéticas, em 1768. Apesar da escolha pela estética idealizadora da natureza, alguns de seus poemas refletem, ainda, certos aspectos barrocos (inversões, antíteses e conflitos interiores). Em suas poesias, os aspectos ligados à natureza fogem ao padrão europeu. 

São inúmeras as referências ao “pátrio rio” (Ribeirão do Carmo) e a sua cidade (Mariana), com seus “penhascos”, “rochas íngremes” etc. Usou o pseudônimo de Glauceste (Alceste) Satúrnio. Foi o primeiro poeta do neoclassicismo brasileiro, de sólida cultura humanística.

Cláudio é considerado um dos maiores sonetistas da língua portuguesa, sendo avaliado por Manuel Bandeira, dentre os poetas do grupo mineiro, como “o mais correto na metrificação e na linguagem”. 

Os sonetos, em número de cem, podem ser lidos e compreendidos tanto de maneira separada quanto “como partes constituintes de um poema maior”.

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O soneto XCVIII indica a tradição clássica a que pertence o poema, pois os versos são decassílabos e o esquema de rimas é regular (rimas opostas nos dois quartetos: ABBA ABBA e rimas alternadas nos dois tercetos: CDC DCD). Nele podemos perceber uma característica muito própria de Glauceste: um forte tom intimista. . A poesia escrita em primeira pessoa está centrada na constatação da força, da tirania do Amor; o eu lírico confessa-se um prisioneiro, um refém do Amor.

Na primeira estrofe, o eu lírico fala de sua terra natal (observe que as pedras – elemento típico da paisagem mineira – representam o berço do poeta.) e sobre a sua própria maneira de ser(traços da sua personalidade). Apresenta duas ideias opostas (antítese): afirma que nasceu em um lugar de pedras duras, mas que tem a alma terna. Os elementos que identificam o cenário dizem respeito ao campo, à natureza e não à cidade (penhascos, penhas duras). É o princípio do "fugere urbem" (expressão latina que significa fuga da cidade) adotado pelos árcades. A linguagem simples e clara também é uma característica do Arcadismo.

Na segunda estrofe, o poeta focaliza o´´ Amor``(o enfoque termina no fim do soneto), que aparece descrito no poema, como um ser muito forte com vida própria (um guerreiro capaz de vencer os tigres e quebrar a resistência das pedras) que produz sofrimento. Declara que o ´´Amor`` obstinou-se em vencê-lo. Observe que a palavra está grafada com inicial maiúscula porque, na mitologia, os sentimentos são personificados. Logo, esse recurso é uma característica do Neoclassicismo: à imitação dos antigos e, conseqüentemente, à presença da mitologia.

Na terceira estrofe, mesmo conhecendo os danos do amor, o poeta não consegue evitá-los (apresenta-se como derrotado). A expressão ´´cego engano`` é utilizada metaforicamente para representar o Amor (o Cupido, na mitologia, é cego).
Na última estrofe o eu lírico dirige-se às pedras, que, por serem tão duras, aguçariam a firmeza do amor em vencê-las, mas deixa uma advertência: contra o Amor não há resistência( uma pequena reflexão para aqueles que se julgam ´´de pedra`` e, portanto, resistentes à tirania do Amor).



segunda-feira, 3 de maio de 2010

Marília de Dirceu: Parte I - Lira I



Lira I

Eu, Marília, não sou algum vaqueiro,
Que viva de guardar alheio gado;
De tosco trato, d’ expressões grosseiro,
Dos frios gelos, e dos sóis queimado.
Tenho próprio casal, e nele assisto;
Dá-me vinho, legume, fruta, azeite;
Das brancas ovelhinhas tiro o leite,
E mais as finas lãs, de que me visto.
Graças, Marília bela,
Graças à minha Estrela!

Eu vi o meu semblante numa fonte,
Dos anos inda não está cortado:
Os pastores, que habitam este monte,
Com tal destreza toco a sanfoninha,
Que inveja até me tem o próprio Alceste:
Ao som dela concerto a voz celeste;
Nem canto letra, que não seja minha,
Graças, Marília bela,
Graças à minha Estrela!

Mas tendo tantos dotes da ventura,
Só apreço lhes dou, gentil Pastora,
Depois que teu afeto me segura,
Que queres do que tenho ser senhora.
É bom, minha Marília, é bom ser dono
De um rebanho, que cubra monte, e prado;
Porém, gentil Pastora, o teu agrado
Vale mais q’um rebanho, e mais q’um trono.
Graças, Marília bela,
Graças à minha Estrela!

Os teus olhos espalham luz divina,
A quem a luz do Sol em vão se atreve:
Papoula, ou rosa delicada, e fina,
Te cobre as faces, que são cor de neve.
Os teus cabelos são uns fios d’ouro;
Teu lindo corpo bálsamos vapora.
Ah! Não, não fez o Céu, gentil Pastora,
Para glória de Amor igual tesouro.
Graças, Marília bela,
Graças à minha Estrela!
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Vocabulário:
Alheio: de outras pessoas.
Tosco: rude, rústico.
Dos: pelos.
Casal: sítio, pequena propriedade rural, moradia própria.
Trato: tratamento.
Assisto: resido, moro.
Semblante: rosto, fisionomia.
Inda: ainda.
Cortado: enrugado.
Cajado: bastão de apoio nas caminhadas.
Destreza: habilidade.
Concerto: harmonizo com, entro em concerto com.
Dotes: bens.
Ventura: felicidade.
Apreço: valor.
Segura: garante.


A poesia lírica é a parte mais conhecida da produção literária de Tomás Antônio Gonzaga. São popularmente conhecidos, principalmente na região de Minas Gerais, os amores entre Dirceu (pseudônimo pastoral de Gonzaga) e Marília. Até mesmo na literatura de cordel esse tema já foi explorado.

O longo poema de amor que é Marília de Dirceu acha-se dividido em pequenas unidades chamadas liras. Este nome, na antiguidade, era aplicado para designar o instrumento musical com que se entoava a melodia que acompanhava o poema. Em inglês, ainda hoje, o termo lyrics designa a letra de uma canção. Na literatura de língua portuguesa, o nome lira é usado praticamente só para os poemas líricos de Tomás Antônio Gonzaga.

A Lira I, que abre a obra Marília de Dirceu, é quase uma profissão de fé do poeta-pastor: aí está um indivíduo conformado com a sua sorte, convicto de seu papel, realizando o ideal da áurea mediocridade (um ideal de vida equilibrada, sem excessos e associada à natureza, conforme a concebeu o poeta latino Horácio: ´´fugere urbem ut vivere in áurea mediocritate``).

A primeira característica que chama a atenção logo no início do texto é a paisagem campestre evocada pelo poeta, que fala de vaqueiro, gado, ovelha etc. Observe que o poeta-pastor está inteiramente de dedicado à natureza. Por outro lado, é interessante notar que o poeta se ´´defende`` de alguma coisa. A posição defensiva foi mais de uma vez apontada como insegurança de Gonzaga quanto à sua posição social face a Marília (Maria Dorotéia), pertencente a uma das principais famílias de Minas.

Comentários sobre o poema

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A linguagem busca um tom sereno, aproximando-se da expressão coloquial. Entretanto, os preceitos de metrificação não foram esquecidos. A estrutura do poema obedece a uma regularidade formal ao longo de todo o trecho: as estrofes são constituídas de dez versos, os oito iniciais decassílabos e os dois últimos (refrões ou estribilhos) hexassílabos, isto é, com seis sílabas métricas. O esquema rimático apresenta rimas alternadas e opostas (ABABCDDC) nos oito versos iniciais de cada estrofe, sendo que nos refrões há a conjugação de sons, ligeiramente desiguais. As palavras bela e estrela constituiriam uma rima imperfeita, porque a vogal e tem aí timbres diferentes: aberto em bela e fechado em estrela.

Embora se trate, como estamos vendo, de um poema regular, a quebra dos versos decassílabos através do refrão não só facilita a leitura, aproximando o texto de uma canção, ou seja, tornando-o musical, mas também instaura um momento lírico cuja repetição enfatiza o sentimento amoroso: sentimento que associa a imagem de Marília à de uma estrela.

Na primeira estrofe, o eu lírico faz um auto-retrato no qual se coloca como pastor, de acordo com as convenções arcádicas. Observe como o eu lírico, Dirceu, faz uma série de afirmações no sentido de estabelecer claramente a sua condição de superioridade social: ´´não sou vaqueiro que cuide do gado alheio, meu rosto não é grosseiro, nem queimado pela exposição às forças da natureza; tenho casa própria, moro nela, tenho bens de que me sustento (vinho, legume, fruta, azeite, leite, finas lãs)``, o que sugere tratar-se de ´´alguém``, um pastor abastado merecedor, portanto, do amor de Marília. Aqui encontramos a valorização dos bens materiais, conjugada com a presença da natureza como cenário poético. Quer dizer, a presença da ideologia burguesa, conjugada com o bucolismo e o pastoralismo que caracterizam o Arcadismo.

Na segunda estrofe, mantêm-se os elementos arcádicos (fonte, pastores, monte, cajado, sanfoninha (representa a lira do poeta). Além de afirmar sua juventude, Dirceu compara seus dotes artísticos aos dos outros pastores que habitam o mesmo monte (referência aos demais poetas árcades). O que Gonzaga sugere, nessa passagem, é muito claro: é melhor poeta que seus companheiros. Note que o tom comparativo do verso insinua, mais uma vez, a superioridade de seu talento literário. ´´Alceste``, no caso, seria Cláudio Manuel da Costa, já que esse é um dos pseudônimos árcades que adotou. O fato de despertar a inveja de Cláudio, a quem admirava, significa, para Gonzaga, o reconhecimento de sua competência poética.

Depois de deixar clara sua condição privilegiada, o eu lírico enfatiza outro aspecto importante: sem o amor de Marília (identificada como ´´gentil pastora``), de nada valem propriedades, juventude, talento. Se todos esses atributos são importantes, o ´´agrado`` de Marília vale mais que a riqueza (rebanho) ou o poder (trono).

Finalmente, a quarta estrofe é dedicada a Marília: a seus olhos de luz divina, as suas faces cobertas por papoila, ou rosa delicada, aos fios de ouro de seus cabelos, ao lindo corpo que vapora bálsamos...

Se o poeta primeiro aparece como ´´senhor``, na medida em que vai revelando o seu amor, vai passando de senhor a ´´servo``. Isso porque Marília (nome de pastora, de acordo com a mitologia clássica) incorpora também a imagem da ´´mulher-anjo``, a Senhora, a ´´estrela`` da tradição medieval, uma imagem a quem o poeta presta vassalagem amorosa, mas a quem, ao mesmo tempo, sabiamente procura convencer de suas qualidades.

As liras de Gonzaga refletem não apenas os amores de Marília e Dirceu, mas todas as suas experiências vividas em terras mineiras e o ideal de ´´áurea mediocritas``, o ideal de uma existência tranquila, sem extremos. Sobretudo na Parte II, correspondente às liras escritas no cárcere, avultam poemas, em que o poeta se torna o centro de suas preocupações, e, por outro lado, expressam uma forte confiança em sua própria conduta. Manifestação poética do gênero lírico, Marília de Dirceu reflete circunstâncias da própria vida do poeta, expressando o seu ´´eu``, que consiste numa revelação sincera e minuciosa de seu modo de ser. Nesse sentido, muitas vezes a figura de Marília aparece como pretexto, apenas, para Dirceu manifestar experiências pessoais. Assim, de uma certa forma, atinge a temática romântica. Gonzaga torna-se um poeta pessoal, e ´´mais do que cantor de Marília, ele é cantor de si mesmo``. E, assim, ´´a sua grande mensagem é construída em torno dele próprio``, conforme Antônio Candido em Formação da Literatura Brasileira.