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quinta-feira, 29 de julho de 2010

Canção do Exílio - Gonçalves Dias




Kennst du das Land, wo die Citronen blühn,
Im dunkeln Laub die Gold-Orangen glühn,
Kennst du es wohl?
Dahin, Dahin!
Möcht ich... ziehn!
Goethe (trecho da balada ´´ Mignon``)

´´Conheces o país onde florescem as laranjeiras? Ardem na escura fronde os frutos de ouro... Conhecê-lo? Para lá, para lá quisera eu ir!``

Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá;
As aves, que aqui gorjeiam,
Não gorjeiam como lá.

Nosso céu tem mais estrelas,
Nossas várzeas têm mais flores,
Nossos bosques têm mais vida,
Nossa vida mais amores.

Em cismar, sozinho, à noite,
Mais prazer encontro eu lá;
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá.

Minha terra tem primores,
Que tais não encontro eu cá;
Em cismar - sozinho, à noite,
Mais prazer encontro eu lá;
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá.

Não permita Deus que eu morra,
Sem que volte para lá;
Sem que desfrute os primores
Que não encontro por cá;
Sem qu'inda aviste as palmeiras,
Onde canta o Sabiá.

Vocabulário
Cismar: pensar, refletir.
Primores: belezas, encantos.
Gorjeiam: cantam.
Várzeas: campinas baixas.
Desfrute: gozo.

Este é um poema fundamental para que se perceba o espírito saudosista e telúrico da primeira geração romântica: a saudade da Pátria e a exaltação da natureza brasileira. De toda a produção poética deste período, e talvez mesmo de toda produção poética brasileira, será difícil encontrar versos tão conhecidos quanto os da ´´Canção do Exílio``.

Segundo Manuel Bandeira, a Canção do Exílio foi o primeiro grande momento de inspiração do poeta Gonçalves Dias. ´´ Ainda que não tivesse escrito mais nada, ficaria, por ela, o seu nome gravado para sempre no coração e na memória da sua gente. `` De fato, é um dos poemas mais conhecidos popularmente no Brasil.

Neste poema de Gonçalves Dias há uma exaltação da natureza, o que pode remeter ao bucolismo árcade (amplamente comentado aqui, no blog). Porém, enquanto no Arcadismo a natureza se configura com um quadro idealizado e passivo no qual se desenrolam as ações dos pastores fictícios, no Romantismo ela interage com o ´´eu lírico``; é um espaço de redenção, em que o poeta se purifica dos males contraídos da civilização.
Comentários sobre o poema

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Os críticos literários atribuem a extraordinária beleza da canção à simplicidade dos recursos expressivos utilizados. Escrito em versos de sete sílabas (redondilha maior ou heptassílabo), dão ao poema um ritmo bem marcado e de gosto popular, pois encontramos: paralelismo (repetição de versos de mesma estrutura sintática), anáfora (repetição de palavra no início de cada versos) e refrão. Possui alternância de versos rimados (pares) com versos brancos (ímpares). Esse tipo de composição é bem comum nas cantigas de roda, uma vez que é muito fácil de ser cantado.
O título do poema não se refere a uma expulsão ou desterro, mas sim a um sentimento: o poeta está fora do Brasil e escreve uma canção para falar da saudade que sente da Pátria. O eu lírico assume o papel de exilado (ilustra uma característica básica do Romantismo: nacionalismo). Logo no início, define-se o objeto do discurso, estabelecendo-se a parcela da realidade exterior de que trata o poema: ´´Minha terra``, expressão que abre o primeiro verso, como assunto do poema.
Vai uma dica muito boa para você, amiguinho, aqui do blog: é fundamental, para compreensão do poema, localizar geograficamente os advérbios , , aqui, ao longo do poema – que por sinal possui total ausência de adjetivos qualificativos.
Na primeira estrofe, a distância e a saudade provocam a distorção da imagem da terra natal, cuja natureza é minuciosamente comparada com a da terra do exílio (uma longínqua utopia). Elementos como´´palmeiras``(flora) e ´´Sabiá`` (fauna) tornam-se autênticos símbolos de brasilidade. É interessante perceber que ´´palmeira`` é uma árvore que, por si só, já traz implícita as raízes da nacionalidade, ou seja, o poeta fez a mesma escolha que os indígenas haviam feito: antes de ser batizada pelos portugueses, nossa terra era chamada de Pindorama, palavra que, em tupi-guarani, significa ´´terra das palmeiras``.
O ´´Sabiá``, personificado pela letra inicial maiúscula, aparece quatro vezes no poema e, ao rimar com os monossílabos e (advérbios insistentemente repetidos, que representam a terra do exílio e, respectivamente, a terra natal), cria uma sonoridade muito brasileira, nunca antes vista em nossa poesia colonial ou na poesia portuguesa. A ideia das ´´palmeiras onde canta o Sabiá`` repete-se ao longo do poema, exercendo, de forma sutil, o papel de refrão.
Na segunda estrofe, o eu lírico faz elogios sem medidas aos atributos nacionais. Note-se, nesse poema, a posição de superioridade em que a natureza brasileira é colocada em relação a outros ambientes (hipérbole sugerida pelo ´´mais``). Essa idealização era própria da estética romântica, bem como a exaltação da natureza. Para se ter uma ideia da importância desse poema, toda esta estrofe foi ´´emprestada`` por Osório Duque Estrada para colocá-la na letra do Hino Nacional Brasileiro.
Na terceira e quarta estrofes, a Canção é marcada pela reiteração obsessiva dos termos exclusivos ao ´´``. A estes, associa-se a solidão, que é assimilada aqui como um meio através do qual o eu lírico se apóia para reafirmar, a todo instante, a superioridade de sua terra natal em contraponto ao exílio (inclusive psicologicamente, pois encontra ´´mais prazer``). Assim, devemos compreender que o saudosismo do poema supera o plano puramente emocional, assumindo uma postura metafísica. Vale apena observar que o poeta reúne elementos básicos de expressão em prosa – narração e descrição – e os transforma em pura poesia idílica.
É só na moldura do solo pátrio que a natureza (brasileira) adquire um maior valor, um valor que em nenhum outro lugar ela pode ter. Na quinta estrofe, o eu lírico promove o encontro com Deus (que está em todo lugar) nos elementos naturais (panteísmo). Paralelamente à significação da Pátria, este poema pode também ser lido como alusão a um possível Paraíso em que toda angústia e todo embaraço se dissolvem.
É curioso saber que o poeta morre, num naufrágio, na entrada do porto de São Luís do Maranhão, naquele retorno que julgava ser o último, pois estava muito doente, com tuberculose, praticamente em estado terminal.
Observe, então, que este poema é menos individual e mais coletivo: o poeta sai de si e fala de sua realidade exterior, a Pátria. Dela extrai elementos que devem refletir e reforçar o sentimento patriótico dos leitores. Desempenha, assim, um papel semelhante ao dos autores de romances indianistas e históricos. Isto revela que os traços mais gerais de um estilo literário – no caso, o patriotismo romântico – repetem-se ao longo de gêneros e autores.
São inúmeros os autores que, inspirados na ´´Canção do Exílio``(parafraseado ou parodiado), trataram da questão do amor à Pátria desde então: Casimiro de Abreu, Oswald de Andrade, Carlos Drummond de Andrade, Mário Quintana, Murilo Mendes, só para citar os mais conhecidos. Vale a pena, porém, conhecer os versos de Tom Jobim e Chico Buarque de Holanda compuseram para tratar da nossa amada Pátria no conturbado período da ditadura militar iniciado em 1864 – um modo lírico e delicado de falar do desconsolo de viver distante da terra natal.

quarta-feira, 21 de julho de 2010

Soneto: Convite à Marília - Bocage



Já se afastou de nós o Inverno agreste
Envolto nos seus úmidos vapores;
A fértil Primavera, a mãe das flores,
O prado ameno de boninas veste.

Varrendo os ares, o sutil Nordeste
Os torna azuis; as aves de mil cores
Adejam entre Zéfiros e Amores,
E toma o fresco Tejo a cor celeste.

Vem, ó Marília, vem lograr comigo
Destes alegres campos a beleza,
Destas copadas árvores o abrigo.

Deixa louvar da corte a vã grandeza:
Quanto me agrada mais estar contigo
Notando as perfeições da Natureza!

Vocabulário
Bonina: planta também conhecida como maravilha.
Sutil: tênue, delgado, fino, delicado.
Nordeste: vento que sopra do ponto a 45º do N e do E.
Adejar: bater as asas para manter-se em equilíbrio no ar.
Zéfiro: vento do ocidente, vento suave e fresco, personificação mitológica desse vento.
Amores: divindades da mitologia, subordinadas a Vênus e Cupido.
Tejo: o rio mais importante de Portugal.
Lograr: gozar, desfrutar, aproveitar.
Prado: campo.
Ameno: tranquilo.
Vã: inútil.

A obra poética de Bocage apresenta duas fases: a árcade, em que cultiva os temas e as formas comuns ao movimento; e a pré-romântica, em que apresenta inovações quanto aos temas e à visão de mundo, apesar de formalmente ainda se prender à orientação clássica. Encontramos, na fase inicial da poesia de Bocage, uma acomodação aos clichês árcades: pastores, pastoras, ovelhinhas, ribeiros, prados tranquilos, seres mitológicos. Nota-se a preocupação em seguir as convenções neoclássicas.

Os escritores clássicos gregos e latinos produziam certas fórmulas de expressão que, retomadas ao longo dos tempos, chegaram até nossa modernidade. Uma dessas fórmulas é a chamada tópica do lugar ameno (locus amoenus), ou seja, a evocação literária de um recanto ideal, delicado, geralmente bucólico, cuja paz, tranquilidade, harmonia e equilíbrio servem de palco ao idílio dos amantes e o sossego da vida. Simboliza o porto almejado ou o retorno à felicidade perdida. Os escritores do Arcadismo pretendem retomar o mesmo estilo, quer voltando às obras da antiguidade clássica, quer inspirando-se nos modelos renascentistas.

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Este poema pode ser considerado exemplarmente arcádico, na medida em que delineia uma paisagem bucólica e tranquila, onde todos os elementos da Natureza estão em harmonia. Além disso, ressalta certas atitudes tipicamente árcades, tais como: fugerem urbem, simplicidade e clareza das ideias e da linguagem; e a manutenção da tradição clássica, expressa pela mitologia greco-latina e pelo soneto italiano (catorze versos decassílabos, distribuídos em quatro estrofes – duas quadras e dois tercetos – com esquema de rimas ABBA ABBA CDC DCD).
Na primeira estrofe, o eu lírico descreve a sucessão harmoniosa que preside o ciclo das estações. A ´´ fértil Primavera `` floresce (é o resplendor da existência; época do amor e da fertilidade, beleza e bem-estar) e transforma a Natureza devastada pelo ´´ Inverno agreste ``(desolação e esterilidade), em uma paisagem que é perfeita, pura e bela( ´´O prado ameno de boninas veste``).
Para facilitar o entendimento do soneto, o estilo neoclássico, do qual Bocage foi um dos grandes expoentes em Língua Portuguesa, se caracteriza, entre outros aspectos, pelo uso de hipérbatos (versos 1, 2, 4, 5, 6, 8, 10,11e 12), isto é, de inversões da ordem normal das palavras na oração ou da ordem das orações no período. A título de exemplo, os versos 1 e 2, pela ordem direta ficariam: ´´O inverno agreste, envolto nos seus úmidos vapores, já se afastou de nós. ``
Na segunda estrofe, é apresentada uma aquarela pastoril segundo as regras convencionais do Arcadismo. A expressão ´´ Varrendo os ares`` contribui para representar o movimento do vento (personificação) afastando as nuvens, permitindo o céu claro refletido na superfície do rio (´´ E toma o fresco Tejo a cor celeste ``). Toda envolta em azul, a Natureza rescende a tranquilidade: paisagem epidérmica acariciada pelo sopro ameno e sutil do Nordeste. Seres naturais (construídos através da hipérbole ´´ aves de mil cores ``) e mitológicos (´´Zéfiros e Amores´´) acabam fazendo parte de um único espaço capaz de harmonizar as partes (água e céu) de um todo (o quadro idílico pronto para receber os amantes – locus amoenus).
Nesse sentido, o eu lírico, na terceira estrofe, convida a sua amada para compartilhar desse momento de contemplação (´´ Vem, ó Marília, vem lograr comigo´´), desfrutando, assim, das belezas saudáveis do ambiente campestre (bucolismo), para que a harmonia amorosa também seja perfeita. O amor do poeta árcade era muitas vezes expresso pela idealização de uma figura feminina, invocada quase sempre por um pseudônimo (Marília). Ela aparece apenas como uma referência, um ser irreal e distante.
Assim como no Classicismo, a natureza para o árcade é vista de maneira harmoniosa e dessa harmonia participa o casal de namorados. A vida urbana, nesse contexto, é considerada como frívola, falsa, enganadora, insignificante. Este contraste é percebido na última estrofe. O culto à natureza opõe-se ao artificialismo urbano (´´Deixa louvar da corte a vã grandeza``), ilustrando, então, o tema do fugerem urbem isto é, expressão em latim que significa ´´fugir da cidade``. É a convencional crítica aos prazeres da vida cortesã, que acaba sendo desprezada em favor de uma vida no campo.

domingo, 18 de julho de 2010

O Arcadismo em Portugal - Bocage

O século XVIII, em Portugal, é marcado pela crescente divulgação das ideias iluministas, principalmente a partir do apoio que elas tiveram dos governantes D. João V e de seu sucessor D. José I. O objetivo desses governantes era modernizar a nação, promovendo um conjunto de reformas políticas, econômicas e culturais capazes de satisfazer os anseios da burguesia mercantil e colonialista e, ao mesmo tempo, equiparar Portugal novamente às grandes nações europeias.


O executor desse projeto de restauração da vida e da cultura portuguesa foi o ministro Marquês de Pombal, também adepto das ideias iluministas. Para cumprir sua missão de ´´iluminar`` a nação, Pombal contou com o apoio de diversos intelectuais e cientistas portugueses, em grande parte com formação estrangeira. Deste grupo destacava-se o Pe. Luís Antônio Verney, cujo projeto de reforma pedagógica, em parte aproveitada por Pombal, mudou significativamente o cenário científico e artístico português.


As ideias de Verney foram expostas na obra Verdadeiro método de estudar (1746), em que o escritor, dentre outras coisas, atacava a orientação que os jesuítas davam à educação no país e fazia críticas à arte barroca. Essas críticas ao barroco originaram um debate sobre a necessidade de renovação da cultura portuguesa, que resultaria na fundação da Arcádia Lusitana ou Ulissiponense (ulissiponense é um adjetivo que se refere a Lisboa), em 1756, considerada o marco introdutório do Arcadismo em Portugal. Fundamentalmente antigongórica, tinha por emblema um meio braço segurando um podrão e o lema Inutilia truncat (´´Cortar as inutilidades``), numa clara alusão aos exageros do Barroco.


O nome Arcádia remete ao semideus Arcas, filho de Zeus e da ninfa Calisto. Na Mitologia Grega, Arcádia era a morada do deus Pã, deus da natureza e padroeiro dos pastores, considerada com ideal de inspiração poética.


O Cultismo se banalizara com sua preocupação excessiva da forma – acúmulo de ornamentos de estilo, futilidades de assuntos, obscuridade. A reação é providenciada pelo Arcadismo, que preconizava:

a) livrar as letras do seu aspecto formal: que o conteúdo se equilibrasse com a técnica da apresentação;

b) dar mais simplicidade e naturalidade à composição;

c) voltar à antiguidade clássica.


Para tanto, organizaram-se as Academias literárias e os sócios se comprometiam a adotar nomes de pastores celebrados pelos vates gregos e latinos. Eram agremiações que tinham por objetivo promover o debate permanente sobre a criação artística, avaliar criticamente a produção de seus filiados e facilitar-lhes a publicação de obras. Segundo Correia Garção, orientador e crítico da Arcádia Lusitana,


´´ o poeta que não seguir aos Antigos perderá de todo o norte, e não poderá jamais alcançar aquela força, energia e majestade que nos retratam o famoso e angélico semblante da Natureza. Devemos imitar e seguir os Antigos: assim no-lo ensina Horácio, no-lo dita a razão, e o confessa todo o mundo literário. Mas esta doutrina, este bom conselho, devemos abraçá-lo e segui-lo de modo que mais pareça que o rejeitamos, isto é, imitando e não traduzindo (...) quem imita deve fazer seu o que imita (...) Feliz aquele que não só imita, mas excede o seu original.``


Em 1790, foi fundada a Academia de belas Artes, logo após denominada Nova Arcádia. Esta, três anos mais tarde, publicava algumas obras poéticas de seus sócios sob o título Almanaque das Musas. Os membros mais importantes dessa associação foram o brasileiro Domingos Caldas Barbosa, famoso nos ambientes aristocráticos por sua obra lírica, o poeta satírico padre Agostinho de Macedo e o poeta lírico e satírico Manuel Maria Barbosa Du Bocage.


Bocage é a maior figura do Arcadismo português. Descendente de família francesa, nasceu em Setúbal (1765). Sua vida é um não acabar de aventuras. Assentou praça na Marinha, com quatorze anos. Fez viagem para o Oriente, levou vida licenciosa na Índia. Em 1789 desertou e passou a vida errante. Viajou para Macau e, na China, reabilitou-se, conseguindo voltar a Portugal no ano de 1790. Lá chegando, sofreu uma grande desilusão ao encontrar sua ´´Gertrúria``(pseudônimo de Gertrudes da Cunha de Eça) casada com seu irmão mais velho, Gil Francisco. Infeliz no amor, sem carreira e com dificuldades financeiras, dedicou-se à vida boêmia e à poesia, tendo publicado, em 1791, o primeiro volume de Rimas.


Em Lisboa, Bocage conviveu com a boa sociedade, foi amigo dos bons literatos de então, e cultivou crescente número de desafetos. Entrou para a Nova Arcádia com o pseudônimo Elmano Sadino (Elmano é o anagrama de Manuel; Sadino é homenagem ao rio Sado, que passa pela terra natal do poeta). Sua permanência no grupo foi, no entanto, curta: logo passou a alimentar hostilidades com antigos confrades (Agostinho Macedo e Nicolau Tolentino), atacando-os fortemente em seus textos satíricos. Frequentou o botequim das Parras onde pontificava.


Acusado de ideias suspeitas (mação), mais a influência de inimigos, foi preso e processado pela Inquisição. Condenado, gastou o tempo na prisão, traduzindo autores franceses e latinos. Depois de algum tempo na cadeia, muda de ideia e escreve poemas de arrependimento. Teve momentos de grande ponderação, principalmente quando sua irmã, viúva, foi sustentada por ele. Para tanto, aceitou emprego de um livreiro que lhe encomendara traduções. Morreu em 1805, aos 40 anos, vítima de um aneurisma.


Como poeta satírico, Bocage ironizou contemporâneos seus, assim como o clero e a nobreza decadente. Se o poeta é criticado por muitos pelo tom abusivamente obsceno e erótico de seus sonetos satíricos, é, entretanto, elogiado por seu espírito repentista.


Levando um velho avarento

Uma pedrada num olho,

Pôs-se-lhe no mesmo instante

Tamanho como um repolho.


Certo doutor, não das dúzias,

Mas sim médico perfeito,

Dez moedas lhe pedia

Para livrar o defeito.


Dez moedas! (diz o avaro)

Meu sangue não desperdiço:

Dez moedas por um olho!

O outro dou eu por isso.


Bocage cultivou todas as formas líricas: odes, canções, elegias, idílios, cantatas, cançonetas, epigramas, endrechas, alegorias, apólogos, glosas. Foi exímio na composição de fábulas. Também tinha projetos para a épica e para dramaturgia: desejava cantar, na épica, o descobrimento do Brasil e escrever uma tragédia sobre Vasco da Gama. Mas esses projetos não se realizaram. O destaque da obra de Bocage concentra-se na poesia lírica dos sonetos. É considerado exemplar, colocando-se ao lado de Camões e de Antero de Quental, trindade superior do soneto nas letras portuguesas. Bocage foi espírito erradio, esbanjador de talento (daí a imagem falsa e injusta que a lenda popular tenta cultivar). Foi o poeta mais sentimental e vibrante do seu tempo.


´´Em Portugal, a arte de fazer versos chegou ao apogeu com Bocage e depois dele decaiu. Da sua geração, e das que precederam, foi ele o máximo cinzelador da métrica. A plástica da língua e do metro; a perícia de ensamblar das orações e no escandir dos versos; a riqueza e graça do vocabulário; o jogo sábio e ás vezes inesperado das vogais e das consoantes dentro da harmonia da frase. A variação maravilhosa da cadência; a sobriedade das figuras; a precisão e o colorido dos epíteros; todos estes difíceis e complicados segredos da arte poética, cuja beleza e raridade às vezes escapam até aos mais cultos amadores da poesia e aos mais argutos críticos literários, e que somente os iniciados podem ver, compreender e avaliar; esta consciência, este posto, e a medida, este dom de adivinhação e de tacto, de que os artistas natos têm o privilégio – tudo isso coube a Elmano, tudo isto se entreteceu no seu talento. `` (Olavo Bilac)


Em alguns momentos, o lirismo de Bocage revela a orientação do academicismo do século XVIII: a presença dos pseudônimos pastoris da mitologia; a ânsia pelo lócus amoenus, que simbolizava a fuga à vida citadina (fugere urbem); e, enfim, as regras básicas do arcadismo.

Olha, Marília, as flautas dos pastores
Que bem que soam, como estão cadentes!
Olha o Tejo a sorrir-se! Olha, não sentes
Os Zéfiros brincar por entre flores?

Vê como ali beijando-se os Amores
Incitam nossos ósculos ardentes!
Ei-las de planta em planta as inocentes,
As vagas borboletas de mil cores.

Naquele arbusto o rouxinol suspira,
Ora nas folgas a abelhinha pára,
Ora nos ares sussurando gira:

Que alegre campo! Que amanhã tão clara!
Mas ah! Tudo o que vês, se eu te não vira,
Mais tristeza que a morte me causara.

Dentro desta temática, outro procedimento típico da poesia árcade de Bocage é a comparação entre a mulher amada e a natureza. Evidentemente, como seria de se esperar, o resultado de tal processo é a constatação da beleza incomparável da mulher. Encontramos, ainda, textos em que a alegria dos amantes é tão grande que pode despertar a inveja dos próprios deuses.


Grato silêncio, trêmulo arvoredo,

Sombra propícia aos crimes e aos amores,

Hoje serei feliz! – Longe, temores,

Longe, fantasmas, ilusões do medo.


Sabei, amigos Zéfiros, que cedo

Entre os braços de Nize, entre estas flores,

Furtivas glórias, tácitos favores

Hei de enfim possuir: porém segredo!


Nas asas frouxos ais, brandos queixumes

Não leveis, não façais isto patente,

Que nem quero que o saiba o pai dos numes:


Cale-se o caso a Jove onipotente,

Porque se ele o souber, terá ciúmes,

Vibrará contra mim seu raio ardente.


No entanto, a solidão, a desilusão amorosa, o sentimento de desamparo e a dor de viver contagiaram de tal maneira a sua poesia que ela acabou se afastando da estética árcade para se enveredar no campo dramático e confessional, que inseriu Bocage num contexto pré-romântico. Os sonetos mais expressivos de Bocage têm uma forte atmosfera pessoal, de confissão egocêntrica, de uma dramaticidade subjetiva intensa.

Meu ser evaporei na vida insana
Do tropel de paixões, que me arrastava.
Ah! Cego eu cria, ah! mísero eu sonhava
Em mim quase imortal a essência humana.

De que inúmeros sóis a mente ufana
Existência falaz me não dourava!
Mas eis sucumbe Natureza escrava
Ao mal, que a vida em sua origem dana.

Prazeres, sócios meus e meus tiranos!
Esta alma, que sedenta em si não coube,
No abismo vos sumiu dos desenganos.

Deus, ó Deus!... Quando a morte à luz me roube
Ganhe um momento o que perderam anos,
Saiba morrer o que viver não soube.

Poesia de ritmos cadentes e imaginação, muitas vezes com ressonâncias profundas do soneto de Camões, e muitas vezes ressoando nos dramáticos sonetos de Antero de Quental. Poesia de angústias e desesperos. O lócus amoenus árcade é substituído por um lócus horrendus, com a natureza espelhando a dor e o sofrimento expressos pelo eu lírico.

Fiei-me nos sorrisos da ventura,
Em mimos feminis, como fui louco!
Vi raiar o prazer; porém tão pouco
Momentâneo relâmpago não dura.

No meio agora desta selva escura,
Dentro deste penedo úmido e oco
Pareço, até no tom lúgubre e rouco,
Triste sombra a carpir na sepultura.

Que estância para mim tão própria é esta!
Causais-me um doce e fúnebre transporte,
Áridos matos, lôbrega floresta.

Ah! não me roubou tudo a negra sorte:
Inda tenho este abrigo, inda me resta
O pranto, a queixa, a solidão e a morte.

Poesias de confidências com a noite, poemas de amor e de medo sombriamente misturados, poemas de horror da morte e da morte como amor. O arrebatamento e o senso de autodilaceração demonstram quanto sua poesia já antecipa a atmosfera lúgubre e noturna dos ultra-românticos. Também o uso reiterado dos vocativos desvairados extrapola o equilíbrio e a contenção próprias de um texto neoclássico.

Ó retrato da Morte! Ó Noite amiga,
Por cuja escuridão suspiro há tanto!
Calada testemunha de meu pranto,
De meus desgostos secretária antiga!

Pois manda Amor que a ti somente os diga
Dá-lhes pio agasalho no teu manto;
Ouve-os, como costumas, ouve, enquanto
Dorme a cruel que a delirar me obriga.

E vós, ó cortesãos da escuridade,
Fantasmas vagos, mochos piadores,
Inimigos, como eu, da claridade!

Em bandos acudi aos meus clamores;
Quero a vossa medonha sociedade,
Quero fartar o meu coração de horrores.


O subjetivismo, a valorização da vida interior, a autocomiseração, o tom confessional – são essas as novidades introduzidas por Bocage. Mas isso não significa que Bocage tivesse passado ao largo das grandes questões que agitaram o século XVIII. Em vários poemas, percebemos a defesa das liberdades e das conquistas burguesas, que caracterizaram o ideário iluminista.

Liberdade, onde estás? Quem te demora?
Quem faz que o teu influxo em nós não caia?
Porque (triste de mim!), porque não raia
Já na esfera de Lísia a tua aurora?

Da santa redenção é vinda a hora
A esta parte do mundo, que desmaia.
Oh!, venha… Oh!, venha, e trêmulo descaia
Despotismo feroz, que nos devora!

Eia! Acode ao mortal que, frio e mudo,
Oculta o pátrio amor, torce a vontade,
E em fingir, por temor, empenha estudo.

Movam nossos grilhões tua piedade;
Nosso númen tu és, e glória, e tudo,
Mãe do gênio e prazer, ó Liberdade!

Não é difícil perceber em Bocage um modelo de versatilidade poética de seu tempo. Na Academia, um público douto e esnobe a exigir requinte, frieza de composição, cultura clássica; fora da Nova Arcádia, no calor das ruas, o clima propício para a denúncia da hipocrisia social, da corrupção, da politicagem – temas que jamais apareceriam nos poemas ditados pelas normas conservadoras do Arcadismo. Com admirável precisão, o poeta punha o dedo acusador nas chagas sociais de um país de aristocracia decadente, aliada a um clero igualmente corrupto, jungidos ambos a uma política interna e externa altamente anacrônica para aquele momento.

"Pavorosa ilusão da Eternidade,
Terror dos vivos, cárcere dos mortos;
De almas vãs sonho vão, chamado Inferno,
Sistema da política opressora
Freio que a mão dos déspotas, dos bonzos,
Forjou para boçal credulidade;
Dogma funesto, que o remorso arreigas

O poeta revelou a sua faceta espiritual ao traduzir, em várias e expressivas composições, a sua confiança na benevolência de Deus e da Virgem Maria. A índole religiosa de Bocage vem também contrariar a imagem deturpada que as pessoas, menos atentas, têm da obra deste poeta.

Consciente do abismo em que frequentemente caía, implorava diversas vezes o auxilia da Virgem Santíssima.

Tu, por Deus entre todas escolhida,
Virgem das virgens; Tu, que do assanhado
Tartáreo monstro com Teu pé sagrado
Esmagaste a cabeça entumecida;

Doce abrigo, santíssima guarida
De quem Te busca em lágrimas banhado,
Corrente com que as nódoas do pecado
Lava uma alma que geme arrependida;

Virgem, de estrelas nítidas c’roada,
Do Espírito, do Pai, do Filho Eterno,
Mãe, Filha, Esposa e, mais que tudo, amada:

Valha-me o teu poder e amor materno;
Guia este cego, arranca-me da estrada
Que vai parar ao tenebroso inferno!


Bocage, árcade, já é romântico por temperamento. Se em sua obra encontramos deuses, Olimpo e muita retórica há, todavia, pureza de emoções, busca e libertação. Um misto de valores neoclássicos e pré-românticos, revelando com nitidez a transitoriedade da época em que viveu (1765 a 1805), período marcado por grandes transformações sociais e culturais, advindas sobretudo da Revolução Francesa e do florescimento do Romantismo.