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domingo, 1 de maio de 2011

Retrato - Cecília Meireles


Eu não tinha este rosto de hoje,
assim calmo, assim triste, assim magro,
nem estes olhos tão vazios,
nem o lábio amargo.

Eu não tinha estas mãos sem força,
tão paradas e frias e mortas;
eu não tinha este coração
que nem se mostra.

Eu não dei por esta mudança,
tão simples, tão certa, tão fácil:
- Em que espelho ficou perdida
a minha face?


Cecília Benevides de Carvalho Meireles nasceu no Rio de Janeiro em 1901 e morreu na mesma cidade em 1964. Tendo perdido prematuramente os pais ( o pai, três meses antes de ela nascer, e a mãe, quando tinha três anos), foi educada pela avó materna. Em decorrência dede fato, notamos, em suas poesias intimistas, muito presente a relação vida x morte, eterno x passageiro etc., além do aspecto “solidão”, tudo explorado com muito lirismo e leveza.

Segundo a própria escritora, “o meu interesse pelos livros transformou-se em vocação de magistério. Minha mãe tinha sido professora primária, e eu gostava de estudar em seus livros”. Diplomada em professora em 1917, atuou no magistério primário, enquanto estudava música e também escrevia para os principais jornais da imprensa carioca. Em 1919 publicou o seu primeiro livro de poemas, mas a consagração viria em 1938, com Viagem (obra publicada no ano seguinte), que conquistou o prêmio de poesia da Academia Brasileira de Letras. 


Fez várias viagens pelo mundo, como conferencista de literatura, educação e folclore, outro de seus campos de interesse. Quando morreu, em 1964, preparava um poema épico-lírico em comemoração ao quarto centenário da cidade do Rio de Janeiro.

Cecília Meireles, por ter seguido um caminho muito pessoal, não pode ser enquadrada em um movimento ou em uma estética determinados. Seus versos, geralmente curtos, de conteúdo lírico tradicional e muito pessoais, têm raízes simbolistas e se caracterizam pela musicalidade, descritivismo e imagens sensoriais. Um dos pontos altos de sua obra é o Romanceiro da Inconfidência, que lhe custou pesquisas históricas e no qual, empregando o melhor de sua técnica, revela o seu amor à pátria, à liberdade, e a sua admiração pelos mártires da Inconfidência Mineira.

Sua estréia deu-se em 1919, com a publicação de Espectros, coleção de sonetos ainda filiados ao Parnasianismo e Simbolismo. Nunca mais... e Poemas dos poemas, assim como Baladas para El-rei refletem a ligação da poetisa com o grupo espiritualista da Revista Festa. Esses livros foram excluídos de sua Obra poética pela própria autora, que não os considerava representativos de sua poesia. 


Cecília preferiu considerar como marco inicial da sua trajetória poética o livro Viagem (1939), no qual demonstrava maturidade poética. Neste livro, mantém-se dentro dos padrões tradicionais e ultrapassa o primeiro momento do Modernismo brasileiro (anedótico e nacionalista). Ao gosto pela tradição, soma-se uma visão filosófica e universalizante. As indagações sobre a brevidade da vida, o sentido da existência, a solidão e a incompreensão humana, presentes em Viagem, estão em quase toda a sua obra, perpassada por um sentimento de pessimismo e desencanto.


Comentários sobre o poema

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A atmosfera de dor existencial que emana dos poemas de Cecília Meireles é centrada na percepção de que tudo passa e de que o fluir do tempo dissolve as ilusões e os amores, o corpo e mesmo a memória. Um exemplo desta visão sofrida está no poema “Retrato”. Quanto à forma poética, o texto, em parte, liga-se ao Modernismo pela ausência de rimas, que confere uma fluidez mais coloquial à linguagem. No entanto, a estrofação regular (quatro versos) e a métrica, também regular ( os versos maiores variam entre 8 e 9 sílabas, e os menores, com exceção do 4.º verso, têm 4 sílabas), indicam uma poesia vinculada ao tradicional ( resquícios da poesia simbolista). O poema explora a musicalidade através da aliteração do som nasal, sugerindo, neste caso, um lamento frente à situação presente.


Na 1.ª estrofe, a efemeridade da vida é constatada quando o eu lírico descreve o seu próprio rosto. Entretanto, ele não mais o reconhece como sendo seu, conforme afirma no verso inicial. A ideia é intensificada pelo advérbio de negação e pelo pronome demonstrativo, que sugere a passagem do tempo, a transitoriedade da vida: “ Eu não tinha este rosto de hoje”. Perceba que os adjetivos ( palavras que modificam o substantivo indicando-lhes uma característica, qualidade, aparência ou modo de ser) "calmo", "triste", "magro" e "amargo" descrevem as características físicas e psicológicas relacionadas ao envelhecimento. As expressões “olhos tão vazios” e “lábio amargo revelam sofrimento e certo desencanto frente a situações que foram vivenciadas.


Na 2.ª estrofe, o eu lírico observa as transformações ocorridas em suas mãos, caracterizadas como sem força, paradas, frias e mortas. São partes significativas e simbólicas do corpo, que outrora traduziam força e luta pela vida. Em seguida, descreve seu coração, metáfora para os seus sentimentos, que, antes, eram expostos e atualmente estão retraídos, escondidos (“eu não tinha este coração/que nem se mostra”). É a composição de um “retrato” interior, de si mesma, mostrando-se fechada e sem energia, sem dinamismo em relação à vida.


Na 3.ª estrofe, logo no primeiro verso, o eu lírico percebe e assume que mudou fisicamente e interiormente. Três adjetivos modificam o substantivo mudança” (simples, certa, fácil), com a finalidade de reforçar o caráter inexorável do passar do tempo. Além dessa percepção, questiona em que momento da vida a sua juventude foi emoldurada pela imobilidade, como acontece nos álbuns de família.


O título “Retrato” se encaixa perfeitamente ao poema. É uma das formas de registro do tempo porque simboliza algo estático, eternizado. O espelho é o instrumento do qual o eu lírico tomou conhecimento das mudanças que lhe ocorreram. Refletidas exprimem sucessões, antecipações, lembranças, instabilidade. Enfim, reflete o próprio tempo que sempre preocupou o homem, pois pensá-lo significa ocupar-se da fugacidade e da efemeridade da vida e da inexorabilidade da morte.