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domingo, 5 de junho de 2011

Cárcere das almas - Cruz e Sousa



Ah! Toda a alma num cárcere anda presa,
Soluçando nas trevas, entre as grades
Do calabouço olhando imensidades,
Mares, estrelas, tardes, natureza.

Tudo se veste de uma igual grandeza
Quando a alma entre grilhões as liberdades
Sonha e, sonhando, as imortalidades
Rasga no etéreo o Espaço da Pureza.

Ó almas presas, mudas e fechadas
Nas prisões colossais e abandonadas,
Da Dor no calabouço, atroz, funéreo!

Nesses silêncios solitários, graves,
que chaveiro do Céu possui as chaves
para abrir-vos as portas do Mistério?!
Vocabulário
Calabouço: prisão subterrânea; cárcere.
Grilhão: corrente que prende os condenados; cadeia, algema.
Funéreo: relativo à morte, aos mortos ou a coisas que com eles se relacionem.
Etéreo: sublime, puro, elevado; celeste, celestial.
O Simbolismo no Brasil enfrentou o clima hostil mantido pelos adeptos do Parnasianismo e produziu obras poéticas que, de certa forma, abriram caminho para a renovação que eclodiria com a Semana de Arte Moderna. Os simbolistas tiveram que lutar contra o prestígio do grupo realista-parnasianista que, além da tradição literária inabalável até então, somava a seu favor o fato de ter sido a geração fundadora da Academia Brasileira de Letras (1896). A arte enigmática, baseada no sonho, na imprecisão, na invenção de uma linguagem nova, ajustada ao desvendamento de mundos subjetivos e nebulosos; o ritmo novo, e os símbolos inesperados não encontraram pronto acolhimento no mundo poético objetivo, padronizado e solidificado nos moldes acadêmicos vigentes. Didaticamente, considera-se o ano de 1893 como o marco inicial do Simbolismo no Brasil, ainda que antes daquela data se possam registrar várias manifestações poéticas ligadas à nova estética. Entre elas, destaca-se a publicação de Canções da decadência, de Medeiros de Albuquerque, em 1887.
No início da década de 1890, no Rio de Janeiro, um grupo de jovens, insatisfeitos com a extrema objetividade e com o materialismo da corrente literária dominante (Realismo/ Naturalismo/ Parnasianismo), resolveu divulgar as novas ideias estéticas e literárias vindas da França. Eram conhecidos como decadentistas. Esse grupo (formado principalmente por Oscar Rosas, Cruz e Sousa, Bernardino Lopes e Emiliano Perneta) lança no jornal Folha Popular o primeiro manifesto renovador. No Ceará, outros jovens fundaram uma sociedade literária, dedicada ao culto das excentricidades da nova arte, chamada Padaria espiritual.
Consideram-se obras introdutórias do Simbolismo no Brasil “Missal” (poemas em prosa) e “Broquéis” (versos), publicados em 1893; com as quais Cruz e Sousa renovou a poética em língua portuguesa (o vocabulário, os motivos temáticos, a musicalidade, o acento rítmico, a métrica inclusive), apresentando originalidade e um repertório amplo de recursos expressivos. Os temas da morte, do desejo de transcendência, do mistério, do conflito interior e da escravidão unem-se a uma constante preocupação formal para conferir à sua poesia uma qualidade diferenciada.
Cruz e Sousa já foi traduzido e publicado em pelo menos em oito idiomas. A internacionalização da poética começou logo depois de sua morte. A primeira manifestação sobre a grandeza do trabalho foi publicada na revista "El Mercúrio de América". Trata-se de uma conferência proferida em 1899 em Buenos Aires, na Argentina, pelo poeta boliviano Ricardo Jaimes Freyre.
Conhecido como o “Cisne Negro” do nosso Simbolismo( seu “arcanjo rebelde”, seu “esteta sofredor”, seu “divino mestre”) procurou na arte a transfiguração da dor de viver e de enfrentar os duros problemas decorrentes da discriminação racial e social. Filho de escravos alforriados, João da Cruz e Sousa nasceu em Nossa Senhora do Desterro ( hoje Florianópolis), no ano de 1861. O sobrenome lhe foi dado pelo antigo senhor de seus pais, o Marechal Guilherme Xavier de Sousa, que dedicou à criação do menino, até então João da Cruz, carinho e cuidado, providenciando que estudasse no Ateneu Provincial Catarinense, onde teve uma educação esmerada, chegando a dominar o francês, o latim e o grego. Foi aluno do insigne naturalista Fritz Müller, sábio de reputação universal, colaborador e amigo íntimo de Darwin e Haeckel.

O ano de 1881 viu a estréia de Cruz e Sousa nas letras. Com a morte do protetor, abandona os estudos e começa a trabalhar na imprensa catarinense, escrevendo crônicas abolicionistas e participando diretamente da campanha em favor da causa negra. Juntamente com Virgílio Várzea e Santos Lostada, fundou o jornalzinho literário Colombo e, no ano seguinte, passou a colaborar para a Tribuna Popular. Como diretor deste jornal, de cunho abolicionista, começou a alcançar alguma projeção social e, com ela, chegaram às manifestações de preconceito. A pequena e provinciana Nossa Senhora do Desterro não podia admitir que um negro interferisse na vida cultural da cidade. Parte para uma viagem pelo Brasil, acompanhando a Companhia Dramática Julieta dos Santos, na função de ponto. Realiza conferências abolicionistas em várias capitais. Lê Baudelaire, Leconte de Lisle, Leopardi, Guerra Junqueiro e Antero de Quental.
Em 1883, mais uma vez o preconceito cruzou seu caminho de forma impiedosa: nomeado promotor público de Laguna, foi impedido de ocupar o cargo por ser negro. No ano de 1885, lança o primeiro livro, Tropos e Fantasias em parceria com Virgílio Várzea. Cinco anos depois muda-se, então, para o Rio de Janeiro, onde procurava sobreviver como jornalista( fez pequena participação no jornal Folha Popular). O que consegue, na realidade, é um mísero emprego na Estrada de Ferro Central do Brasil.
Em fevereiro de 1893, publica Missal (influenciado pela prosa de Baudelaire) e em agosto, Broquéis, dando início do Simbolismo no Brasil que se estende até 1922. Sua tragédia pessoal agrava-se com o casamento. A esposa, Gavita Gonçalves, também negra, deu-lhe quatro filhos. Todos morreram muito cedo, vitimados pela tuberculose. Com a morte dos filhos, Gavita enlouqueceu e permaneceu internada por longos períodos.
Em 1897, concluiu um livro de prosa poética denominado Evocações. Quando preparava-se para publicá-lo, viu-se abatido pela tuberculose e partiu para Minas Gerais em busca de tratamento. Faleceu em 19 de março de 1898 aos 36 anos de idade em uma pequena cidade mineira, Sítio, onde refugiara-se devido a doença que lhe marcou a vida. Seu corpo foi transportado para o Rio de Janeiro em um vagão de animais, sendo quase sepultado como indigente (enquanto poeta, permaneceu incompreendido pela crítica, só tendo seu valor reconhecido após a sua morte). Não obstante uma história de vida tão marcada pela miséria e pela dor, a produção literária de Cruz e Sousa o coloca hoje ao lado dos grandes simbolistas do século XIX, chegando mesmo a ser comparado com Mallarmé. Além das obras já mencionadas, foram publicados, postumamente, Faróis (1900) e Últimos sonetos(1905).
A obra do poeta negro é fruto do drama que intensamente sofreu. Na primeira fase, espelhada por Broquéis e Faróis, encontramos o autor revoltado, indignado contra a miséria, marginalização( a dor de ser negro) e desprezo em que se via. Na segunda fase, é com os Últimos Sonetos que o poeta obtém em maior grau a espiritualização sublimatória da experiência dos sentidos. O eu lírico forceja por libertar-se da carne. A caridade e a piedade insinuam-se como o caminho da salvação e conforto. Liberto dos apetites sensuais e sociais, o poeta se despoja, se humilha rendido, pondo-se nu diante do Mistério, cujo recesso almeja conhecer integralmente.
“A queixa antiga transfigura-se em heroicidade, em espírito de renúncia, em contemplação de uma espécie de mundo das ideias eternas, em sabedoria, em ânimo de apostolado, muitas vezes em convívio com o pensamento de Deus”. (Tasso da Silveira)
Nesta etapa o tecido expressivo, a palavra e a substância poética fundem-se numa só entidade, realizando o ideal simbolista de explorar até o seu limite último o conjunto semântico e musical das palavras.
“Cárcere das almas” é um texto menos impregnado dos recursos formais mais comuns do Simbolismo. Sua musicalidade é menos exuberante que a dos textos anteriores do poeta e suas imagens são mais simples. A sensualidade anterior é substituída por uma ansiedade existencial: o texto exprime um desejo muito forte de transcendência, de superação dos limites impostos ao ser humano – que se obtém por meio da libertação dos sentidos. Indaga-se sobre as “chaves” capazes de abrir as “portas do Mistério” às almas que soluçam nas trevas.


Comentários sobre o poema

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Em todo o poema, o autor procurou destacar a limitação e a rigidez a que a alma humana está condenada. A opção pela forma soneto, uma forma rígida (catorze versos, distribuídos em dois quartetos e dois tercetos) realça a essência desta temática de prisão, limitação. Quanto à métrica, percebemos um grupo de versos com esquema rítmico tradicional( 1, 2, 10,13 e 14 – decassílabos heróicos / 5 e 12 – decassílabos sáficos) e outros, no entanto, apresentam desvios em relação ao modelo clássico, como por exemplo o verso 6 (2-6-10) e o verso 7 (4-(6)-10, com acento atenuado na 6ª sílaba). Analisando estes e outros desvios, termos a nítida impressão que o poeta combinou os tipos de versos decassílabos, fundindo-os. O resultado da combinação de versos tão variados cria um ritmo novo, diferente dos anteriores. Além das rimas finais ( o esquema rímico é abba, abba, ccd, eed) o poema apresenta rimas internas, assonância e aliterações. Tais recursos dão musicalidade (melodia própria) ao texto.


Na 1.ª estrofe, a interjeição “Ah!” revela um lamento do eu lírico diante da constatação que vem logo a seguir: “Toda a alma (qualquer alma, todas as almas) num cárcere anda presa”. Repare que a presença do artigo (a) na estrutura do sintagma permitiria pensar em a alma inteira, porém este mesmo artigo no 6º e 9º verso elimina esta hipótese. A condição humana é angustiante, na visão revelada por estas palavras: o cárcere das almas é o próprio corpo ( condição material, a própria vida na terra). Soluçando entre as trevas, a alma, de sua “prisão” vê as imensidades, mares, estrelas, tardes, natureza, isto é, o mundo em suas manifestações de infinito e plenitude, o mundo em sua totalidade ( notamos que estes elementos se opõem nitidamente – antítese).Percebemos, também, que esta estrofe é marcada pela assonância (repetição de sons vocálicos) nas palavras “mares”, “estrela”, “tardes”, “natureza”.


Na 2.ª estrofe, o eu lírico, através da oração adverbial temporal, expressa que através do sonho ( ou sonhando) a alma sai desta prisão e se veste de grandeza (vislumbra imortalidades). É através desta visão onírica que os“verdadeiros sentidos” podem ser encontrados em plenitude, na plenitude das ideias puras (“no etéreo espaço da Pureza”), ou seja, entrar em contato com o espiritual ou não racional. É um plano abstrato, imaterial, intelectivo, traduzindo uma ânsia de captar o mundo em sua potencialidade maior: a alma do seu cárcere contempla as ideias eternas. O efeito da antítese nesta estrofe reforça a oposição, o conflito entre o material e o espiritual: Alma entre grilhões x grandezas do sonho, sonhar imortalidades (liberdade de voo). É o desejo de transcendência, de superação desse dualismo.

A 3.ª estrofe inicia-se por um chamamento, uma invocação: “Ó almas presas” (vocativo). Este trecho reitera e especifica o estado emocional revelado pela expressão “Ah!” que abre o soneto: é um lamento, uma trágica observação diante da condição material da vida humana, desfavorável para que as almas se realizem plenamente. São muito importantes para o sentido do poema os adjetivos (presas, mudas, fechadas) empregados neste terceto, referentes ao substantivo alma. Eles indicam aprisionamento, incomunicabilidade e, ao mesmo tempo, revelam a ânsia, o desejo de libertação. Outra particularidade a ser observada é a respeito do adjetivo funéreo. Ele sugere a ideia de que tal situação não corresponde a verdadeira Vida. Viver, assim, é estar no calabouço da Dor, com maiúscula alegorizante: a dor maior, a dor de viver. É a visão do eu lírico sobre a vida terrena (a vida é apenas angústia e sofrimento).

Na 4.ª estrofe, marcada pela aliteração (repetição de sons consonantais) presente no verso inicial,o eu lírico procura valores espirituais como solução que possibilite à alma o encontro com a libertação da triste condição material. Neste contexto, percebemos, com angústia, um questionamento direcionado para o interior do próprio ser( o “eu” é o centro do universo nas profundezas do inconsciente). As próprias palavras (“chaveiro do Céu”) permitem-nos admitir uma visão do homem à luz da transcendência religiosa( e neste sentido, só a morte traz a possibilidade de contemplar a plenitude das coisas, só ela permite igualarem-se as coisas em grandeza, só a morte traz libertação). As “portas do Mistério”, simbolicamente, representam as dúvidas com que cada um de nós se depara pela ânsia metafísica de conhecer além, de encontrar respostas às questões existenciais básicas.


Nesta fase final de sua produção, Cruz e Sousa universaliza seus temas, exprimindo o desejo de obter uma mais ampla compreensão da condição humana, principalmente pelo desprendimento material e aprimoramento espiritual. A vida material é considerada uma forma de restrição do espírito, que, com a morte, liberta-se e integra-se ao todo universal. Observe que esse anseio transcendente é um traço fundamental das concepções de mundo dos simbolistas: isto significa que Cruz e Sousa, em sua obra, passa de uma fase inicial mais atenta aos aspectos formais do movimento para uma etapa mais autenticamente simbolista – pois os recursos formais, usados com mais sobriedade, correspondem a uma real necessidade expressiva e não a um mero desejo de fazer literatura de acordo com a “última moda”.