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sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Soneto de fidelidade - Vinícius de Moraes

De tudo, ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.

Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento.

E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama

Eu possa me dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.

Vocabulário
canto: poesia.
louvor: elogio, exaltação.
pranto: choro.
pesar: tristeza, desgosto.
vão: insignificante, banal.
zelo: dedicação, cuidado.

Diplomata, dramaturgo, jornalista, poeta e compositor de música popular, Vinícius de Moraes (1913-1980) foi um escritor profundamente lírico. Sua estreia literária se deu em 1933, com a publicação do livro O caminho para a distância, apontado pela crítica como “neossimbolista”. Entretanto, esses primeiros poemas, de caráter místico e religioso, logo evoluíram para uma perspectiva mais material da existência, que abarcava temas da vida cotidiana e, de modo especial, focalizava o amor e a mulher.

Na Antologia poética, em que reuniu a parcela mais significativa da própria obra, o poeta afirma que esta pode ser dividida em duas partes, correspondentes a duas fases evolutivas.

Na primeira fase, a atividade criadora é marcada pela subordinação a temas místicos e religiosos, com direções transcendentes e metafísicas, ligadas ao catolicismo. Predominam os versos mais longos, algo dissertativo, em que se misturam símbolos de contradições internas, às vezes disfarçada por sugestões religiosas e bíblicas, e temas que, no futuro, constituirão a principal matéria da poesia de Vinícius, como sucede em A volta da mulher morena.

Meus amigos, meus irmãos, cegai os olhos da mulher morena
Que os olhos da mulher morena estão me envolvendo
E estão me despertando de noite.

Em relação à mulher, nesse poema, pode-se afirmar que ela representa o pecado e precisa ser eliminada para que o eu lírico encontre a paz.

Na segunda fase, o poeta se entrega à diversidade temática e formal, com maior riqueza de recursos, versos mais curtos e descontraídos, ritmos versáteis e leves. Abandonando os versos longos e o tom solene dos primeiros poemas, Vinícius se aproxima do cotidiano, misturando o coloquialismo a uma variedade de formas poéticas, algumas inclusive extraídas da tradição clássica, como o soneto, que o poeta dominava. A grande mudança, porém, é de ordem filosófica e diz respeito ao olhar que o poeta lança sobre a experiência amorosa. Se antes o desejo perturba porque inibe a ascese do espírito, agora ele é o próprio motor de que se vale o poeta para produzir seu canto.

[...]

E eu, moço [quando] busco em vão meus olhos velhos
Vindos de ver a morte em mim divina:
Uma mulher me ama e me ilumina.

A ideia de iluminação da vida e redenção das próprias angústias pelo encontro amoroso, erótico, carnal, resolve o contraste entre redenção espiritual e vida mundana.

Os temas atuais constituem a preferência de sua poética, em que se mesclam a emoção e a malícia, o gosto pelo cotidiano e a sugestão de sublimidade. Assim, também o amor e a morte (temas eternos) se apresentam sob as mais diversas formas, ora associados à sensualidade e ao erótico, ora em composições levemente irônicas ou maliciosas, ora em suaves enlevos líricos, ora em versos de analítico aprofundamento, à maneira de Camões ou de Cláudio M. da Costa. É o que ocorre em seus antológicos sonetos de fidelidade, de separação, do amor maior e em outros, menos citados, mas não menos ricos, pela densidade vocabular e sutileza analítica.

Os requintados sonetos em que Vinícius reflete sobre o amor são um dos pontos altos de sua produção. Modernizando uma das mais conhecidas formas clássicas de composição poética, o poeta carioca se empenhou em traduzir as contradições inerentes ao sentimento amoroso, bem como as suas dimensões sensual e carnal. Nessa parte de sua obra podem estar, sem exagero, as mais belas composições no gênero, em Literatura Brasileira, e algumas de suas obras-primas, como por exemplo o “Soneto de fidelidade”, um dos mais populares poemas de nossa literatura.

Uma das razões desse sucesso é a riqueza de imagens e de sons que ele apresenta. Além da metáfora, da antítese, do paradoxo e do pleonasmo, Vinícius emprega outras figuras de linguagem. Repare que nos versos da 1.ª estrofe há uma constante repetição do fonema /t/: tudo, atento, Antes, tanto, encanto, encante, pensamento. Esse recurso é chamado de aliteração.

No “Soneto de fidelidade”, Vinícius adota um tom camoniano, mas nos transmite uma visão do amor muito mais realista: a de que o sentimento amoroso deve ser sim, infinito – mas “infinito enquanto dure”. No lugar do amor platonizante e transcendente, o amor mais cotidiano, sujeito às mudanças que o tempo impõe a tudo.




Comentários sobre o poema

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O poema apresenta nítida influência clássica( cultivo do soneto, vocabulário culto, inversões sintáticas e chave de ouro). Sua estrutura é organizada em duas partes essenciais: a primeira, formada pelas duas quadras (estrofes de quatro versos); e a segunda, pelos dois tercetos (estrofes de três versos). Possui ritmo pelo jogo entre a métrica (número de sílabas poéticas - versos decassílabos) e as rimas (esquema ABBA/ABBA/CDE/DEC). No nível da sintaxe encontramos, apenas, dois hipérbatos (inversão da ordem natural das palavras), como acontece, por exemplo, em “ De tudo ao meu amor serei atento/Antes ( na ordem direta teríamos “Serei atento ao meu amor antes de tudo”).

O título do poema é bastante sugestivo, pois apresenta a forma poemática “soneto” e o tema “fidelidade”. O interlocutor é o próprio “eu”, porque a impressão que se tem é a de que o soneto é dito, como se fosse uma promessa de alguém para si mesmo.

Na 1.ª estrofe, o eu lírico afirma: terá, com seu amor, tanta atenção que seu pensamento ficará mais fascinado por ele do que por outro ser, por mais beleza que este apresente(“maior encanto”.). As expressões “com tal zelo”, “sempre” e “tanto” dão, respectivamente, idéia de modo, tempo e intensidade. "Com tal zelo" é equivalente a “de modo tão zeloso” ou “tão zelosamente”, indicando, pois, modo. "Sempre" é um advérbio de tempo e "tanto" um advérbio de intensidade. Fidelidade é entrega total à pessoa amada(exclusividade), renunciando, assim, a outras possibilidades amorosas.

Na 2.ª estrofe, há reiteração do desejo de amar, acrescentando que este sentimento deve ser vivido intensamente em todos os instantes. O eu lírico jura fidelidade e fala sobre a dedicação ao amor; um sentimento intenso a ser compartilhado, tanto na alegria como na tristeza: “E rir meu riso e derramar meu pranto (pleonasmo)/ Ao seu pesar ou seu contentamento”(antítese). Assim, o amor e a fidelidade terão de enfrentar situações contraditórias(seja nos momentos de dor, seja nos momentos de alegria).

Na 3.ª estrofe, o eu lírico tem consciência que tanto a vida, quanto o amor são passageiros. Sendo assim, emprega a mesma construção sintática (paralelismo sintático) para definir a morte como “angústia de quem vive” e a solidão como “fim de quem ama”. Conforme as ideias gerais do poema, pode-se dizer que uma das duas(talvez a morte, talvez a solidão) o procurará.

Na 4.ª estrofe, o eu lírico parece querer fundir duas ideias, ou seja, falar do amor (em geral), partindo de suas próprias experiências pessoais no terreno amoroso: “Eu possa me dizer do amor (que tive)”. Esse amor (ou paixão, já que se fala em fogo) dura apenas o breve instante do calor de uma chama: “Que não seja imortal, posto que é chama” (metáfora). A imagem da chama simbolizando a sensualidade e a finitude do amor, do ir e vir das relações amorosas, intensas mas não eternas, pode ser considerada o traço típico desse poeta, que dessa forma contribui com a proposta do Modernismo : aproximar a experiência poética da experiência vivida.


A chave de ouro do “Soneto de fidelidade” é uma das mais conhecidas passagens da poesia brasileira. O verso final apresenta o paradoxo “infinito enquanto dure”. Perceba o efeito expressivo obtido por essa figura de linguagem: um amor “infinito enquanto dure” sugere uma transformação da palavra “infinito”: ela perde o sentido temporal (pois o infinito, nesse sentido, dura infinitamente) e passa a ter uma dimensão de intensidade ( o envolvimento total, absoluto, com o sentimento, como se o tempo não importasse mais). Nesse sentido, a eternidade se mede em termos de intensidade e não de duração cronológica.

A importância de Vinícius de Moraes para a cultura brasileira não se restringe à literatura. Juntamente com Tom Jobim e João Gilberto, ele participou, nos anos 50, da criação do movimento musical da Bossa Nova. Assim, tornou-se compositor dos mais queridos, autor de inúmeras letras de canções que alcançaram e ainda alcançam grande sucesso de público.