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terça-feira, 24 de abril de 2012

Motivo - Cecília Meireles



Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste:
sou poeta.

Irmão das coisas fugidias,
não sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias
no vento.

Se desmorono ou se edifico,
se permaneço ou me desfaço,
— não sei, não sei. Não sei se fico
ou passo.

Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno a asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo:
— mais nada.

Vocabulário
Fugidias: fugazes, efêmeras, passageiras.

Primeira mulher a alcançar destaque no cenário da poesia brasileira, Cecília Meireles escreveu vários livros de poesia em que desenvolveu as tendências da corrente espiritualista da segunda geração, sob a influência dos poetas que formariam o grupo da revista Festa, de inspiração neossimbolista. Depois, afasta-se desses artistas, sem, contudo, perder as características intimistas, de introspecção, numa permanente viagem para dentro de si mesma.

Suas reflexões conduzem a poesia a uma busca pelo eterno, não propriamente em seu sentido divino, mas sim ligado a um desejo de transcendência do espírito pela matéria, canto que procura a essência da experiência de existir:

“E nessas letras tão pequenas
o universo inteiro perdura.
E o tempo suspira na altura
por eternidades serenas.”

A produção literária de Cecília Meireles ocupa um lugar à parte na literatura brasileira, pois ao contrário das intenções nacionalistas e das inovações na linguagem encontradas nos modernistas, manteve-se presa ao lirismo de tradição portuguesa, mas com uma expressão bem pessoal. Através da depuração da linguagem musical e cadenciada do Simbolismo, transformou em belos poemas a sua melancolia e o sentimento da saudade e do tempo, que tudo devora:

“Quando um vulto humano se arrisca,
fogem pássaros e borboletas;
e a flor que se abre, e a folha morta,
esperam, igualmente transidas,
que nas areias do caminho
se perca o vestígio de sua passagem.”

Sua sensibilidade manifestava-se na valorização da intuição e da emoção como formas de interpretar o mundo. Para isso, parte de certo distanciamento do real imediato e dirige os processos imagéticos para a sombra, o indefinido, o sentimento da ausência e do nada. Nas palavras da própria Cecília “a poesia é grito, mas transfigurado”. A transfiguração se faz no plano da expressão.

O lirismo delicado que caracteriza suas obras está intimamente ligado a imagens da natureza ( a água, o mar, o ar, o vento, o espaço, a rosa, etc.) e do infinito, compondo uma atmosfera de sonho e fuga. Dedicou-se ao desenvolvimento de temas como o amor, o tempo, a transitoriedade da vida e a fugacidade das coisas, como evidencia o poema “Motivo”( parte integrante do livro Viagem). Sobre ele, assim declarou Mário de Andrade:

“Uma adequação extraordinária do sentimento lírico ao texto versificado (...) impressão de adequação absoluta, pela simplicidade, pelo acordo, pelo tamanho do pensamento expresso, sem palavras demais”.


Vale a pena reiterar que um dos aspectos fundamentais da poética de Cecília Meireles é a sua consciência de que tudo é transitório; por isso mesmo, o tempo é personagem central de sua obra: o tempo passa, é fugaz, fugidio. Numa entrevista a autora fala da transitoriedade da vida, dando uma espécie de chave para melhor compreensão de sua poesia:

“Nasci aqui mesmo no Rio de Janeiro, três meses depois da morte de meu pai, e perdi minha mãe antes dos três anos. Essas e outras mortes ocorridas na família acarretaram muitos contratempos materiais, mas ao mesmo tempo, me deram, desde pequenina, uma tal intimidade com a morte que docemente aprendi essas relações entre o Efêmero e o Eterno que, para outros, constituem aprendizagem dolorosa e, por vezes, cheia de violência. Em toda a vida, nunca me esforcei por ganhar nem me espantei por perder. A noção ou sentimento da transitoriedade de tudo é o fundamento mesmo da minha personalidade.”


quinta-feira, 5 de abril de 2012

Psicologia de um vencido - Augusto dos Anjos


Eu, filho do carbono e do amoníaco,
Monstro de escuridão e rutilância,
Sofro, desde a epigênesis da infância,
A influência má dos signos do zodíaco.

Profundissimamente hipocondríaco,
Este ambiente me causa repugnância…
Sobe-me à boca uma ânsia análoga à ânsia
Que se escapa da boca de um cardíaco.

Já o verme — este operário das ruínas —
Que o sangue podre das carnificinas
Come, e à vida em geral declara guerra,

Anda a espreitar meus olhos para roê-los,
E há-de deixar-me apenas os cabelos,
Na frialdade inorgânica da terra!


Vocabulário


Rutilância: qualidade de rutilante, muito brilhante, resplandecente.
Hipocondríaco: em sentido figurado, triste, melancólico.
Carnificina: grande quantidade de corpos mortos; matança.
Carbono: composto orgânico presente em todos os vegetais e animais.
Amoníaco: gás que se encontra nas matérias em decomposição.
Epigênesis: teoria da geração dos seres por estágios graduais. No texto, pode significar origem.


Paraibano, nascido em 1884, no engenho do Pau d’ Arco, filho de pequenos proprietários rurais, Augusto dos Anjos testemunhou a ruína financeira da família, resultado da decadência do sistema latifundiário, que nos primeiros anos do século XX foi substituído pelas grandes usinas.

Iniciou seus estudos no Liceu Paraibano, em 1900, e já nesse ano publicava seu primeiro trabalho, o soneto “Saudade”, no Almanaque do Estado da Paraíba. No ano seguinte, inicia colaboração no jornal O Comércio, publicando aí seus poemas até 1908.

Cursou Direito em Recife, sem nunca ter advogado; porém foi neste ambiente acadêmico que Augusto familiarizou-se com a ciência da época. Absorveu de tal modo os termos científicos, que passa a empregá-los na linguagem oral e escrita.

Durante toda a sua vida foi professor de Português e Literatura Brasileira, seja em bons estabelecimentos de ensino, como em aulas particulares.

Paralelamente as suas atividades como professor, sempre colaborou em jornais, publicando seus poemas. Em busca de melhores condições financeiras, Augusto foi para o Rio de Janeiro, passando sérias dificuldades para sustentar a esposa e os filhos.

Tudo isso agravou seu estado de íntima revolta, fazendo-o descrer do mundo e ver em tudo podridão física e moral.

Em 1912, com a ajuda do irmão, edita a sua coletânea de poesias com o título Eu. O livro provocou escândalo entre os leitores da época que, acostumados à elegância parnasiana, depararam com uma obra cuja linguagem ainda hoje pode ser considerada de caráter original, paradoxal e até mesmo chocante.

Essa foi a única obra, pois veio a falecer dois anos depois dessa publicação, aos trinta anos de idade, vítima de pneumonia. Estava, então, no interior de Minas Gerais, para onde fora transferido a fim de exercer a função de diretor de um grupo escolar.


Seu único livro é composto de cinquenta e oito poemas, escritos quase todos em versos rimados e decassílabos. Tradicional do ponto de vista técnico, o Eu aborda, porém, a temática da podridão, da decomposição, do terror, da morte e do sofrimento. Posteriormente, a obra foi republicada com o acréscimo de outros textos, passando a ser chamada Eu e outras poesias.

Augusto dos Anjos é um poeta que não se encaixa nos moldes de nenhuma corrente literária, autor de uma poesia pessimista, mórbida, de imagens impactantes. É parnasiano na forma (soneto, métrica e rima), naturalista no vocabulário (uso de terminologia científica), simbolista na sonoridade áspera de seus versos, decadentista no pessimismo de suas constatações, expressionista pelas distorções e exagero, mas essas classificações não conseguem apreender toda a complexidade de sua poesia. A influência de estéticas do século XIX aproximou-o dos demais autores pré-modernistas, mas a ausência de referências ao Brasil de sua época diferenciou-o deles.

Os poemas de Augusto dos Anjos tematizam a dor de existir e a inevitabilidade da morte. Não se trata, porém, de uma poesia espiritualista, que reflete sobre o destino da alma. Pelo contrário, fixa-se na matéria e no processo de decomposição do corpo. O eu lírico afirma a incondicional podridão para a qual se dirige todos os homens, destino que desqualifica a existência. Seguindo o pensamento do filósofo alemão Schopenhauer, de grande repercussão no período, Augusto dos Anjos via a dor como a essência do mundo e os momentos de prazer, apenas como sua suspensão temporária.


Para expressar sua visão negativa, o eu lírico desestabiliza a própria poesia, recorrendo a termos e a imagens incomuns no campo poético, como se lê em “Psicologia de um vencido”.

O poema descreve as ações do eu e do verme. O eu somatiza o drama existencial, enquanto o verme arquiteta silenciosamente a destruição final do eu. O vocabulário científico, tomado principalmente à química e as imagens repulsivas reforçam a natureza perecível e finita do homem.

Para explicar o procedimento poético de Augusto dos Anjos, o crítico Anatol Rosenfeld usou a expressão exogamia linguística, que significa a introdução de um elemento estranho no fluxo histórico de uma língua. No caso da poesia pré-modernista, o elemento estranho não eram os estrangeirismos, mas sim o vocabulário científico, os coloquialismos e os termos relacionados à deterioração do corpo, que, ao lado de palavras consideradas comuns em poemas, resultam em uma combinação insólita e provocativa, que dessacralizou o poema e lhe deu um novo vigor.

Comentários sobre o poema
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Embora o título contenha a palavra “Psicologia”, o poema (soneto, composto de versos decassílabos, com esquema rímico ABBA ABBA CCD EED) detém-se a tratar da matéria, das substâncias químicas que formam o “eu”, evitando maior introspecção. Apesar disso, é possível constatar o negativismo interior do eu lírico, que se considera “vencido” em virtude da fragilidade física do ser humano e da força implacável da morte.

Na primeira estrofe, o eu lírico se remete a um fato da infância que se estende até o presente. Profundamente pessimista em relação à vida, ele tem em si mesmo a visão de ser apenas um conjunto de substâncias químicas (“Eu filho do carbono e do amoníaco”) cujo destino, através do desenvolvimento do poema, é a morte e a decomposição.


Essa concepção trágica da existência em Augusto dos Anjos, essa dor de existir tão caracteristicamente simbolista assume, como em Cruz e Sousa, uma dimensão cósmica: “Sofro, desde a epigênesis da infância, / A influência má dos signos do zodíaco”. Perceba que estes versos, além de revelarem certa angústia moral, abordam a miséria da existência humana desde o momento de sua constituição mais elementar.



Na segunda estrofe, o eu lírico apresenta o seu desagrado em relação ao ambiente que vive. Palavras como “hipocondríaco”, “ânsia” e “cardíaco” exprimem a concepção do homem como um ser mórbido e doentio.



A partir da terceira estrofe, o eu lírico projeta suas expectativas para o futuro. Para isso, utiliza o maior símbolo da degenerescência e da podridão da matéria humana: “o verme”. Observe que o poeta utiliza o recurso da metáfora “operário das ruínas” para caracterizá-los. “As ruínas” seriam o corpo humano sem vida, com os vermes, em seu trabalho de decomposição, comparados a operários.


Na última estrofe, o eu lírico trata a morte friamente, como se a pressentisse e se preparasse para vivê-la. A rudeza é evidenciada nas imagens do “sangue podre das carnificinas”, do roer dos olhos pelo verme e da permanência exclusiva dos cabelos.


O pessimismo verificado em “Psicologia de um vencido” está presente em quase toda a obra de Augusto dos Anjos. Mas, se na visão do poeta as forças da matéria conduzem apenas ao mal e ao nada, o que resta a esse eu que guarda em si toda a angústia do mundo?


A linguagem do poema surpreende e modifica uma tradição poética brasileira, constituída em grande parte com base em sentimentalismos, delicadezas, sonhos e fantasias (desvinculação da arte com o conceito de beleza). “Carbono”, “amoníaco” e “epigênesis”, por exemplo, são vocábulos empregados poeticamente por Augusto dos Anjos que tradicionalmente seriam considerados antipoéticos (os mesmos provêm da ciência, particularmente da Química).