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domingo, 24 de fevereiro de 2013

Poética - Manuel Bandeira


Estou farto do lirismo comedido
Do lirismo bem comportado
Do lirismo funcionário público com livro de ponto expediente
protocolo e manifestações de apreço ao sr. diretor.
Estou farto do lirismo que pára e vai averiguar no dicionário o
cunho vernáculo de um vocábulo.

Abaixo os puristas
Todas as palavras sobretudo os barbarismos universais
Todas as construções sobretudo as sintaxes de exceção
Todos os ritmos sobretudo os inumeráveis
 

Estou farto do lirismo namorador
Político
Raquítico
Sifilítico
De todo lirismo que capitula ao que quer que seja fora
de si mesmo

De resto não é lirismo
Será contabilidade tabela de co-senos secretário
do amante exemplar com cem modelos de cartas
e as diferentes maneiras de agradar às mulheres, etc.
 

Quero antes o lirismo dos loucos
O lirismo dos bêbados
O lirismo difícil e pungente dos bêbedos
O lirismo dos clowns de Shakespeare


 Não quero mais saber do lirismo que não é libertação.

Vocabulário
Comedido: moderado, prudente.
Protocolo: formalidade, norma de etiqueta.
Apreço: estima consideração.
Cunho: espécie, detalhe, sentido.
Purista: o que leva ao exagero a pureza da linguagem.
Vernáculo: relativo à língua genuína, pura.
Barbarismo: erros gramaticais de pronúncia, grafia, de significação, estrangeirismos.
Capitular: render-se, entregar-se, renunciar.
Pungente: comovente, doloroso.
Clowns: palavra inglesa que significa palhaços, artista grotesco ou burlesco.

Manuel Carneiro de Sousa Bandeira Filho nasceu no Recife, em 1886. Transferiu-se, ainda criança, para o Rio de Janeiro, onde se bacharelou pelo Colégio Pedro II. Quando terminou o curso de Humanidades, matriculou-se na Escola Politécnica de São Paulo. Em 1904, interrompeu os estudos, por motivo de grave enfermidade, e retornou ao Rio de Janeiro à procura de lugares de repouso e de bom clima para a cura da tuberculose. Desde esta ocasião, Bandeira começou a compor versos e crônicas.



 Na esperança de uma recuperação mediante tratamento médico adiantado, partiu para a Suíça, onde ficou internado no Sanatório de Clavadel. Com o início da Primeira Guerra Mundial, interrompeu o tratamento e, ao regressar ao Brasil, compôs Cinza das Horas (1917). A respeito deste livro de estreia, disse o autor:

“Não fiz versos por ser poeta. Fiz pra desabafar os sentimentos físicos. Cinza das Horas não era o início de uma carreira e sim uma amostra para mim mesmo de que não morreria sem deixar nada.”

Essa declaração revela a tristeza do poeta de estar banido do mundo dos seres sadios, robustos. Influenciado pelos simbolistas franceses Baudelaire e Verlaine, seus versos deixam transparecer a ideia da morte e do desalento:

“É bem verdade que me torturaMais do que as dores que já conheço,
E em tais momentos se me afigura
Que estou morrendo... que desfaleço...”

(“Desalento”)

Com Carnaval (1919), Manuel Bandeira granjeia grande sucesso. De um modo geral, o tom dessa obra é o desencanto. Em contraste com a euforia carnavalesca, a maioria dos poemas de Carnaval traz a marca da decepção:

Eu quis um dia, como Schumann, compor
Um carnaval todo subjetivo:
Um carnaval em que o só motivo
Fosse o meu próprio ser interior...

Quando o acabei
a diferença que havia!
O de Schumann é um poema cheio de amor,
E de frescura, e de mocidade...
O meu tinha a morta morta-cor
De senilidade e de amargura...
 
O meu carnaval sem nenhuma alegria!
(Epílogo)

 Em 1924, publica Ritmo Dissoluto. Como forma de superar a autocomiseração, Bandeira solidariza-se com o sofrimento alheio:

Os meninos carvoeiros
Passam a caminho da cidade.
— Eh, carvoeiro!
E vão tocando os animais com um relho enorme.
 

Os burros são magrinhos e velhos.
Cada um leva seis sacos de carvão de lenha.
A aniagem é toda remendada.
Os carvões caem.
 

(Pela boca da noite vem uma velhinha que os recolhe, dobrando-se com um gemido.)
(Meninos Carvoeiros)

A partir de 1930, Manuel Bandeira integra-se definitivamente ao movimento modernista, com Libertinagem, uma das mais importantes obras de toda a literatura brasileira, onde aparecem poemas como “O cacto”, “Pneumotórax”, “Evocação do Recife”, “Poema tirado de uma notícia de jornal”, “Irene no céu”, “Vou-me embora pra Pasárgada” e “Poética”, entre tantos outros. E aqui aparece a palavra-chave de toda a sua obra modernista: liberdade, seja de conteúdo, seja de forma. Nela o poeta instaura o diálogo dentro da poesia, insurge contra o despotismo gramatical, afasta-se de seu melancólico individualismo.

Após Libertinagem, ainda seriam publicadas, em poesia, as obras Estrela da manhã (1936), Lira dos cinquent'anos (1948), Belo belo (1948), Opus 10 (1952) e Mafuá do malungo (1954) – todas incluídas em Estrela da vida inteira, de 1965.
 

 Comentários sobre o poema

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Em “Poética” (metapoema, poesia que fala de poesia), observamos o espírito de “demolição” da primeira fase modernista, mas já existe a proposta de construir uma poesia de vocabulário simplificado, emoção musicada, sem rima, sem métrica, sem pontuação e preferência pela ordem direta na disposição das palavras no verso. Bandeira, passada a “fase heróica”, iria evoluir para uma poesia que harmonizou, sabiamente, a revolução modernista e a tradição lírica luso-brasileira.

A composição usa versos livres (sem número regular de sílabas) e versos bárbaros (com mais de 12 sílabas) e que não há pontuação.

Temos ainda o aproveitamento de algumas conquistas das vanguardas européias, como a ruptura com os padrões rígidos da gramática, a valorização do substantivo, o aproveitamento de palavras até então consideradas não-poéticas (sifilítico, por exemplo). Há inclusive, um verso longo e enumerativo que termina com a palavra etc., abrindo espaço para que o leitor se transforme em co-autor acrescentando alguns outros exemplos do que não é poesia.

Até o verso 5, Bandeira ataca à poesia parnasiana, o purismo da linguagem, a contenção emocional.

Nos versos de 6 a 8, defende a liberdade poética, o verso livre, a linguagem coloquial, a ruptura com as normas da “língua culta”, com o “gramatiquês” de Rui Barbosa etc.

Nos versos de 9 a 15, ironiza o “lirismo namorador”, as” pálidas virgens” do romantismo, já desgastadas de tanto uso.

Nos versos de 16 a 20, sintetiza a proposta de uma poesia densa, espontânea, projetiva do inconsciente, das emoções dos “loucos” e dos “bêbados”, uma poesia que, como os clowns, faça do riso um instrumento para o mergulho no fundo do homem e na tragédia da vida.


Atividades propostas

1) Manuel Bandeira, ao mesmo tempo que propõe uma nova poética, realiza-a, na prática. Destaque do poema um verso que exemplifique as seguintes propostas:
a) “Todos os ritmos sobretudo os inumeráveis”;
b) “Todas as palavras sobretudo os barbarismos universais”.

2) O que significa, no contexto, a expressão adjetiva “funcionário público”?


3) O que quis parodiar o poeta com esta sequência de três proparoxítonas rimados: político, raquítico e sifilítico?

4) O emprego do verso livre e a falta de uma pontuação mais rigorosa, como no terceiro verso, associam o poema a que corrente de vanguarda?